| Cesária Évora em entrevista: O mar dá-me conselho |
| 06-Mar-2006 | |
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Correio da Manhã – O seu novo disco fala sobre o mar. É uma fonte de inspiração? Cesária Évora – Toda a vida dos cabo-verdianos gira em torno do mar. O mar é fonte de riqueza para quem vive da pesca. É o ponto de chegada e de partida para os que emigram. É inspiração para os poetas e os músicos e também o meu confidente. É a ele que peço calma e conselho. – Incluiu também canções mais antigas do seu repertório... – São canções que sempre cantei no Mindelo, como ‘Avenida Marginal’, do Ildo Lobo, ou ‘Nha Confidente’, mas que nunca tinha incluído em disco. Nunca calhou. – Recorda com saudade esses tempos em que cantava nos bares do Mindelo? – A vida é sempre feita de saudade daquilo que já passou, mas também de esperança no que está para vir. – ‘Rogamar’ é um disco ambulante, gravado entre Paris, Rio de Janeiro e Mindelo... – Foi assim porque eu estava a descansar em casa após a digressão e como o produtor tinha um estúdio no Mindelo aproveitei para ir gravando algumas músicas. Só que ele também tem um estúdio em Paris e houve canções que tiveram de ser trabalhadas lá com os músicos. Depois fui ao Brasil para o Jacques Morenlenbaum fazer alguns arranjos. – Gosta do estúdio? Não é um ambiente demasiado frio? – Faz parte do meu trabalho. É onde ganho energia para subir ao palco. – Mas a energia do público será, certamente, a mais importante... – Também. Só é preciso estar concentrado e bem ensaiado para que tudo bata certo. – Como surgiu a parceria com Jacques Morenlenbaum? – Conheci-o no Brasil quando fiz um espectáculo com a Marisa Monte, no qual ele fez os arranjos, e gostei muito do seu trabalho. Agora surgiu a opor- tunidade de voltar a fazê-lo. Nem sequer sabia que ele tinha incluído violinos no disco... mas ficou bonito. – Como é que reconhece as suas canções nas propostas dos compositores? – Sinto... Quando oiço uma música e ela consegue emocionar-me é porque foi feita para mim. – Há pouco tempo, houve eleições em Cabo Verde. Como olha para o futuro do país? – O futuro o dirá. Eu não sei... – Mas o que é que sonha para o seu país? – Primeiro, desejo chuva, para que o povo viva com menos dificuldade e, também, mais emprego, para que todos tenham a oportunidade de ganhar o pão de cada dia. – Quando actua em Portugal? – No Verão, nas Festas de Lisboa. – Entretanto vai fazer digressões nos EUA e Europa, incluindo os países de Leste. Como é que povos tão diferentes entendem a cultura de Cabo Verde? – Não entendem a língua, mas compreendem os sentimentos e a música, que é uma linguagem universal. – Continua a viver no Mindelo. Como se sente no bulício das grandes cidades e das viagens? – Muito bem. Mas nunca trocaria o Mindelo por outro lugar. PERFIL Cesária Évora nasceu no Mindelo, ilha de São Vicente, Cabo Verde, em 1941.Começou por cantar em bares locais e acabou por despertar a atenção de um agente de espectáculos francês, que a levou para Paris onde gravou o primeiro disco, ‘La Diva Aux Pieds Nus’, editado em 1988 O álbum tornou-se num dos maiores êxitos da world music e acabou por valer a Cesária Évora a alcunha que a celebrizou: a diva dos pés descalços. Desde então, já editou mais onze discos. Em 2004 conquistou um prémio Grammy precisamente na categoria de world music. Vanessa Fidalgo - Correio da Manhã - www.correiomanha.pt Comentários (0)
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