África do Sul: Mudança de liderança no ANC, anseios e receios sobre o futuro
01-Dez-2007
Jacob Zuma pode tornar-se no novo líder do Congresso Nacional Africano (ANC) a partir de 16 de Dezembro, sucedendo a Thabo Mbeki, de acordo com o processo de nomeações para a liderança deste movimento sul-africano.
A batalha pela liderança da força dominante da política sul-africana - que muitos comentadores descrevem como "a luta pela alma do ANC" - e que culminará no Congresso que se inicia a 16 de Dezembro na cidade nortenha de Polokwane (ex-Pietersburg), é vista com preocupação, expectativa ou ansiedade, consoante os sul-africanos.
Entre os mais carenciados - que constituem uma fatia significativa da sociedade por força das desigualdades do passado, da lenta transformação social promovida pelo ANC e pelo enorme influxo de imigrantes sem qualificações técnicas de muitos países africanos - o estilo populista de Zuma faz dele o candidato ideal para suceder ao enigmático, distante e "intelectualizado" presidente Mbeki.
Esta realidade reflectiu-se no processo de nomeações da nova liderança do ANC, já finalizado pelas estruturas provinciais do movimento, que aponta Jacob Zuma como o provável vencedor.
Se Zuma for eleito para presidir ao ANC nos próximos cinco anos é muito possível que ele venha a ser também o candidato do movimento à chefia do Estado nas eleições de 2009, pondo fim a uma década de "Mbekismo", como muitos chamam ao período que se seguiu à Presidência de Nelson Mandela (1994-1999).
Contudo, se Thabo Mbeki não se pode gabar de ter feito muitos amigos durante os oito anos de Presidência já cumpridos, Zuma suscita muito mais receios do que promessas, em particular entre os sul-africanos com maior consciência política, mais qualificações académicas e melhor nível social.
Estão ainda presentes na memória dos sul-africanos os processos judiciais contra Zuma por corrupção e fraude, num caso envolvendo o concurso para reequipamento das forças armadas, e num outro por violação, em que o "vice" de Mbeki no ANC revelou ideias polémicas sobre as mulheres e o HIV/SIDA.
Apesar de absolvido em ambos os processos, Zuma poderá voltar a ser acusado pelo Ministério Público num caso de suborno e tráfico de influências relacionado com a compra de material de defesa, uma vez que as investigações continuam a decorrer e a Procuradoria mantém na sua posse documentação que diz poder ser utilizada em futuros processos-crime.
Devastadora para a reputação de Zuma é ainda a condenação a 15 anos de prisão do seu ex-aliado político e conselheiro económico Schabir Shaik, cujos crimes surgem intrinsecamente ligados à figura do então vice-presidente, embora tenham sido insuficentes para o condenar.
Objecto de suspeição permanente ou, segundo o próprio, de vitimização por camaradas de partido e pelos media, Zuma é ainda alvo de sátiras e cartoons depreciativos desde que venceu uma outra batalha judicial, por alegada violação de uma "amiga de família" da idade das suas filhas.
Durante o julgamento, Jacob Zuma, referiu-se à situação como "sexo consensual", admitindo que sabia que a sua parceira era seropositiva, mas que estava seguro porque "tomava sempre um duche após as relações sexuais". Estas afirmações valeram-lhe nova chuva de anedotas.
Thabo Mbeki, que já afirmou não se dar por derrotado antes da contagem final dos votos no Congresso, não deixa, segundo a maioria dos observadores, legado de peso na África do Sul, apesar das excelentes iniciativas a nível continental como a "Renascença Africana" e algumas mediações bem conseguidas em processos de pacificação do continente, como a RDCongo, o Ruanda ou o Burundi.
Impenetrável, distante, e em muitas matérias, como o HIV/Sida, considerado irracional, Mbeki tem no país uma imagem que não agrada a gregos nem a troianos, ou seja, nem a ricos nem a pobres.
Mark Gevisser, que publicou recentemente a biografia do presidente sul-africano - "Thabo Mbeki, o Sonho Adiado" - trouxe a lume um documento assinado por Mbeki e distribuído entre a liderança do ANC há seis anos, em que se comparava os cientistas que estudam o HIV a "médicos dos campos de concentração nazis" e se classificava os negros que acreditam nas teorias aceites como provadas pela comunidade científica sobre a Sida como "vítimas auto-reprimidas de uma mentalidade esclavagista".
O seu apoio tácito ao regime do presidente Robert Mugabe do Zimbabué, a aparente indiferença quanto à trágica realidade do crime, o apoio ao comissário nacional da polícia Jackie Selebi (que o levou a demitir o director-geral da Procuradoria quando este conseguiu um mandado de captura contra Selebi) e o despedimento da ex-ministra adjunta da Saúde por discordar da ministra Tshabalala-Msimang quanto à política sobre a Sida são alguns aspectos que podem ter contribuido para uma má imagem do presidente e levar à sua derrota no congresso do ANC.
Um editorial recente do jornal conservador "The Citizen" afirmava mesmo que "a única medida acertada que o presidente tomou durante o seu mandato foi manter Trevor Manuel como ministro das Finanças".
Mas os mais moderados dão crédito, nomeadamente, ao respeito intransigente que Mbeki sempre demonstrou pela propriedade privada e pelas leis do mercado, e que terá permitido à economia um crescimento sustentado durante quase uma década na casa dos 5 a 6 por cento ao ano.
Outros possíveis candidatos teriam o apoio das classes média-alta e dos meios empresariais, mas a sua influência na estrutura política do ANC, após largos anos de afastamento da vida política activa, está enfraquecida e o seu posicionamento entre as elites do grande capital retirou-lhes apoios decisivos nos bairros mais degradados, onde residem milhões de sul-africanos.
Os nomes mais citados são os de Cyril Ramaphosa, ex-sindicalista e negociador-chefe do ANC nos tempos da Codesa, nos anos 90, quando o governo de F. W. de Klerk negociou os termos da transição com Mandela e seus pares, e Tokyo Sexwale, outro destacado dirigente do ANC que se empenhou na criação dos novos grupos económicos negros que promovem a transformação económica do país.
Agência Lusa - www.lusa.pt
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