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China/África: Trocas comerciais podem elevar-se a 70 mil milhões de dólares este ano
23-Nov-2007
As trocas comerciais entre a China e os países africanos vão ultrapassar os 70 mil milhões de dólares este ano, as linhas de crédito são reforçadas e há cada vez mais investimentos directos e fluxo migratório. Dados que não vão escapar ao encontro de líderes da 10ª Cimeira União Europeia-China, que decorrerá no dia 29 de Novembro. A notícia foi dada no passado dia 14 de Novembro pela agência de notícias oficial Nova China: este ano, as trocas comerciais entre o gigante asiático e África deverão ultrapassar os 70 mil milhões de dólares (cerca de 47,2 mil milhões de euros, ao câmbio actual). Na prática, isto quer dizer que o objectivo de atingir os cem mil milhões em 2010 deverá ser atingido mais cedo.

A mensagem, enviada pelo ministério do comércio chinês, chega em vésperas da 10ª Cimeira União Europeia-China, que decorrerá no dia 29 de Novembro, seguida depois pela cimeira entre a Europa e os países africanos (agendada para dia 8 de Dezembro). Entre estes dois encontros, há um dado recente na geografia económica mundial que completa a triangulação, que é a crescente ligação entre a China e os países africanos. E esse será um tema inevitável no encontro de dia 29.

Desde 2000, ano em que se realizou em Pequim o primeiro fórum para promover a cooperação entre este país asiático e os países africanos, as relações entre ambas as partes não têm parado de crescer. O começo foi logo propício, com o abatimento de dívidas de 1,3 mil milhões de dólares. E o facto de em 1999 o valor das transacções entre as duas partes ter sido da ordem dos 6,5 mil milhões de dólares, ou seja, cerca de dez por cento do valor deste ano, ilustra bem a velocidade a que se deu o estreitamento das relações, principalmente desde 2001, ano em que a China aderiu à Organização Mundial do Comércio.

De acordo com um estudo do Fundo Monetário Internacional (FMI) de Agosto deste ano, assinado por Jian-Ye Wang e intitulado "What drives China"s growing role in Africa?", 62 por cento das importações chinesas provenientes de África foram de petróleo e gás, seguindo-se os minerais e metais (13 por cento). Com a alta de preços destas matérias-primas, é natural que os valores das importações também subam mais rapidamente. Em troca, a China exporta produtos manufacturados e máquinas e equipamentos de transportes.

Política comercial

Desde que chegou ao Sudão, no início da segunda metade da década de 90, o país mais populoso do mundo tem mostrado que o seu objectivo é assegurar o fluxo de matérias-primas, diversificando tanto quanto possível os pontos de abastecimento. E pouco importa o tipo de regime com que tem de negociar. Steve Stead, da fundação Brenthusrt, escreve que a presença crescente da China neste continente é "o desenvolvimento mais importante para a região desde o fim da guerra-fria". Disto isto, aponta que o seu modelo de liderança politica, autoritária mas moderna, com uma visão de capitalismo estatal, é bem recebido nos Estados africanos e poderá dar inspiração a réplicas locais. Do lado oposto estão os princípios dos países ocidentais, ligados ao mercado livre, liberalismo e democracia.

Ricardo Soares de Oliveira, professor da Universidade de Oxford e especialista em economia internacional, com destaque para África, fala de uma subordinação dos interesses comerciais das empresas à política, contra a visão de maximização do lucro ocidental. Citando alguns casos, menciona a compra da refinaria de Kaduna, na Nigéria, uma infra-estrutura de difícil rentabilização, e um investimento da ordem dos mil milhões de dólares no sistema ferroviário local, pouco passível de dar retorno. Em troca destes gestos para sedimentar boas relações, as empresas petrolíferas de controlo estatal, como a CNOOC e a CNPC, garantem participações em poços de petróleo.

Sendo actualmente o segundo maior consumidor mundial de petróleo, preparando-se para ultrapassar os Estados Unidos, cerca de um terço das importações chinesas de hidrocarbonetos têm origem em África. Graças às suas enormes reservas de carvão, a China depende menos do petróleo do que muitos outros países, mas nem por isso deixa de necessitar de compras externas. E, aqui, destaca-se o papel de Angola. Em 2005, este país representou mais de 50 por cento de todas as importações que a China fez de África, superando a Arábia Saudita como principal fornecedor. Segundo Christopher Coker, professor de relações internacionais da London Business School, o Sudão tem também um papel de relevo, valendo sete por cento das importações chinesas de petróleo, com a particularidade da CNPC ser o principal accionista individual da companhia que controla os campos de petróleo do país, cuja segurança é assegurada por cerca de 4 mil seguranças chineses.

No caso angolano, foi garantida uma linha de crédito de 4,4 mil milhões de dólares pelo Exim Bank, instituição financeira ligada às relações comerciais, para ajudar a reconstruir o país depois da guerra. Graças a esta linha de financiamento, o governo presidido por José Eduardo dos Santos pode prescindir do apoio do FMI, bem como das suas exigências de combate de maior transparência e combate à corrupção. O pagamento da linha de crédito, feita a taxas atractivas e que garante a entrada de empresa chinesas para reconstruir estradas e o caminho-de-ferro, será feito em petróleo, durante vários anos. Na passada segunda-feira, o investigador Renato Aguilar, da Universidade de Gotemburgo, defendeu numa conferência no ISCTE que tem havido "dificuldades para criar um número suficiente de projectos a financiar", o que pode significar que "algo não está a correr bem" com os créditos.

Esta questão não se coloca só em Angola, mas também em países como a República Democrática do Congo, abastecedora de cobre e de cobalto. Dificilmente o seu presidente, Joseph Kabila, terá prestado muita atenção quando no passado dia 3 de Outubro o responsável do FMI alertou, em Kinshasa, para os riscos negativos, ao nível macroeconómico, de um empréstimo de cinco mil milhões de dólares proveniente da China. Usando o princípio da "não interferência", recusando-se a fazer juízos morais ao lado dos negócios, os responsáveis chineses, segundo um documento da instituição alemã Jena Economic Research Papers de Agosto, permitem aos governantes africanos "rejeitar as exigências feitas pelo FMI, Banco Mundial e outros doadores para que haja mais transparência, implementem estratégias de combate à corrupção e acelerem a democratização". Da mesma forma, diz a mesma análise, há uma vantagem sobre outros países, já que "as empresas estatais chinesas têm uma menor aversão ao risco do que as empresas ocidentais porque são fortemente apoiadas, ao nível político e económico, pelo Governo. A estreita colaboração entre membros do executivo e homens de negócio chineses torna mais fácil à China estimular investimento em países que, embora de risco, são estrategicamente importantes".

À boleia do Estado

Não podendo competir através das tecnologias, as empresas chinesas usam outras tácticas. Além do apoio do Estado, fornecem os projectos "chave na mão", via Exim Bank, com projecto, financiamento e construção, em áreas que incluem edifícios públicos, estádios, etc. Depois, os preços cobrados são mais baratos, até porque a mão-de-obra não requer grandes compensações salariais por viver fora do país.

Hoje, a China já empresta mais dinheiro do que o Banco Mundial, sendo três vezes superior às ajudas dos países da OCDE. Só em 2006, o Exmin realizou empréstimos de 12,5 mil milhões de euros. Nos últimos sete anos as empresas conseguiram garantir contratos para construir, segundo o FMI, mais de 6000 quilómetros de estradas, 3000 quilómetros de caminho-de-ferro, e oito centrais eléctricas. Em 2004 o valor dos projectos foi de quatro mil milhões de euros, valor que deverá ter subido para os 9,5 mil milhões em 2006.

Se é verdade que a China ainda não ultrapassou a Europa ou os EUA como principal parceiro dos países africanos, o facto é que estes têm perdido alguma da sua influência onde a China marca presença, como sublinha o estudo da Jena Economic Research Papers. E, nos últimos dez anos, segundo a revista "Economist", a Europa viu o seu peso passar de 44 por cento para 32 por cento em termos de trocas comerciais.

Além do combate pela captação de recursos, a China pretende garantir novos mercados para os seus bens e serviços, e ter em África plataformas de exportação. O investimento directo, a par dos empréstimos e importações, é uma das suas grandes apostas, e não é só nas áreas de matérias-primas que tem investido. No Zimbabwe, por exemplo, está no sector dos telemóveis, enquanto na Etiópia a aposta é no sector farmacêutico.

O relatório do FMI esclarece que a influência do sector privado chinês "está a crescer", e se muito dos 6,6 mil milhões de dólares aplicados entre 2000 e 2006 são de empresas controladas pelo Estado, parte inclui também os privados. Não há dados concretos, até pela dificuldade em saber o que é de facto privado, mas o FMI adianta que vários milhões de dólares têm sido investidos, fora do destaque dado a companhias como as petrolíferas. Das cerca de 800 empresas que estão a investir em África, o FMI estima que apenas cerca de 100 sejam estatais. Como exemplos, este organismo menciona a Huawei, de telecomunicações, como sendo o maior fornecedor da tecnologia sem fios CDMA, os 400 milhões de dólares que a ZTE vai aplicar nas telecomunicações em Angola, as cerca de vinte pequenas e médias empresas que produzem materiais como colchões na Serra Leoa, a Hashan e os seis milhões que investiu na indústria de sapatos na Nigéria, ou os têxteis na Zâmbia.

Um outro caso é o de Moçambique, onde além de estarem presentes na indústria da madeira, os chineses apostam agora no comércio moderno. Na semana passada iniciou-se na Beira a construção do primeiro centro comercial da região, iniciativa que contou com a presença do embaixador de Pequim. Investimentos que não estão isentos de fricções e choques com as comunidade locais.

Aproveitando os laços económicos para intensificar as ligações políticas, necessárias a nível mundial para fazer face aos EUA, e ganhar aliados no isolamento de Taiwan, a China tem também a estratégia de se expandir a nível cultural, com a abertura de escolas, centros de línguas, intercâmbios e bolsas.

Reforçar os laços

No futuro, a relação sino-africana tende a ser reforçada, principalmente porque será a partir do ano que vem que haverá resultados práticos da cimeira China-África que se realizou em Outubro de 2006. Nessa ocasião, foi dado um novo impulso através de medidas como o alargamento dos produtos importados de África livres de impostos, uma nova linha de créditos preferenciais de cinco mil milhões de dólares para exportações e de outros cinco mil milhões para promover mais investimentos directos nos países africanos, além de outras matérias como assistência técnica e formação e perdão de dívidas. Isto tudo para acontecer até 2009. A longo prazo, destaca Evan Medeiros, da organização norte-americana Rand, as relações serão postas à prova por factores com o abastecimento de hidrocarbonetos, principal motivador de comércio, ser feito via mar, quando a China quer algo mais seguro, via terra. Questiona também se os apoios e investimentos das empresas chinesas são sustentáveis a longo prazo, continuando dispostos a perder dinheiro e pagar subornos. Para todos os efeitos, diz o FMI, a África, referindo-se sempre à subsariana, tende a tornar-se cada vez mais atractiva à medida que os rendimentos sobem e se verificam progressos na integração regional, continuando a precisar de diversas infra-estruturas, e a promover um incremento do investimento directo.

Focos de tensão

O aumento das exportações chinesas para os países africanos tem também lados negativos, afectando a indústria local. O mesmo se passa no resto do mundo, aliás, mas aqui o impacto parece maior, já que a capacidade de reacção é diminuta. Diversas fábricas já fecharam no Quénia, Lesoto, África do Sul e Suazilândia. Em Outubro do ano passado, um artigo da revista "Economist", além de referir que a estratégia chinesa não ajuda a diversificação da produção, relatava os impactos da chegada de produtos baratos, cada vez mais abrangentes, que competem vitoriosamente com a oferta local. Da mesma forma, as empresas chinesas presentes nestes países, com elevadas taxas de desemprego, recorrem pouco a mão-de-obra local, provocando tensões sociais, já patentes em países como a Zâmbia.

Estima-se que haja entre 75 mil a 78 mil chineses em África, de forma mais ou menos permanente, provocando interrogações sobre se estará a decorrer uma espécie de vaga colonizadora de um território com 1,3 mil milhões de pessoas para um continente bastante despovoado. Um artigo da revista "Global Business Perspectives", publicado este ano, cita o responsável da Câmara de Comércio do Chade, que espera a chegada de cerca de 40 mil chineses ao seu país nos próximos anos. À medida que se vão instalando, os novos habitantes tendem a chamar mais imigrantes, nomeadamente os familiares.

Por último, e não obstante o actual número de mais de 70 mil chineses, verifica-se que estes não só convivem pouco com os cidadãos locais, isolando-se, como gastam pouco do seu dinheiro, optando por enviar remessas para o seu país.

Uma lança na África do Sul

O último grande passo da marcha da China para o continente africano ocorreu no passado dia 26 de Outubro, quando o Industrial and Commercial Bank of China (ICBC) comprou 20 por cento do sul-africano Standard Bank. O negócio, avaliado em cerca de 5,5 mil milhões de dólares, representa o maior investimento neste país desde o fim do "apartheid", e junta o maior banco africano com o líder chinês, que é também a instituição bancária com maior capitalização bolsista do mundo. No caso dos chineses, a operação mostra que os investimentos já não são apenas para deter a maioria do capital, apostando em participações minoritárias para ganhar acesso a mercados e ao conhecimento. O presidente do ICBC, Jiang Jian-qing, citado pelo "Financial Times", afirmou que tem como objectivo subir o peso dos mercados externos para dez por cento das receitas do grupo, em vez dos actuais três por cento. Segundo este jornal, o banco, controlado pelo Estado, pretende crescer fora do seu país de origem, diminuindo a exposição ao risco de um abrandamento do mercado local. A preocupação em captar matérias-primas continua sempre presente, sabendo-se que irá ser criado um fundo, de cerca de mil milhões de dólares, para investir em petróleo e minerais nos países emergentes.

Analistas citados pelo "Financial Times" referem que a entrada no Standard Bank "assinala a maturidade das relações" sino-africanas. E que este foi apenas o início de uma série de outras aquisições.

Público - www.publico.pt
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