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Darfur: Segurança é prioridade e só força controlada pela ONU a pode garantir, diz bispo auxiliar
05-Dez-2007

A segurança é a prioridade "número um" em Darfur e só uma força de paz controlada pela ONU a pode garantir, defendeu o bispo auxiliar de Cartum, D. Daniel Adwok, de visita a Portugal.

"A segurança das pessoas é a prioridade número um e a número dois é chegar a um acordo de paz", declarou à agência Lusa D. Daniel Adwok, que esteve o ano passado na província sudanesa (oeste) onde o conflito já causou mais de 200.000 mortos e 2,5 milhões de refugiados desde que começou em 2003.

Segundo o bispo auxiliar de Cartum, em Darfur "fora dos campos (de refugiados) não há segurança para ninguém" e mesmo a segurança dos campos é quebrada pelas "diferentes milícias, especialmente as famosas milícias `janjawid`".

O governo do Sudão contra quem os rebeldes da maioria étnica africana do Darfur, queixando-se de discriminação, se revoltaram em 2003 é acusado de em resposta armar as "janjawid", milícias árabes locais que aterrorizam a população africana.

"A questão em Darfur é da terra das tribos africanas, que são muçulmanas mas africanas, é uma guerra para controlar a terra, a riqueza da terra", referiu D. Daniel Adwok, adiantando que foi quando o governo quis que "as tribos árabes do deserto" se instalassem em Darfur e as pessoas protestaram que a guerra civil começou.

O bispo defende que "o governo devia envolver-se construtivamente em negociações com todas as facções", mas alerta: "Não se pode negociar com os políticos aqui enquanto os militares estão activos no terreno".

"Isto devia ser parado e é por isso que ONU devia garantir a segurança de Darfur e assegurar-se de que é ela que controla, depois disso podem-se realizar as conversações de paz", afirmou.

O governo sudanês aceitou este ano que fosse destacada para Darfur uma força de paz conjunta da ONU e da União Africana, com cerca de 20.000 militares e 6.000 polícias, que deve iniciar a missão em Janeiro.

Mas o comandante da força, general Martin Agwai, alertou sábado que menos de metade das tropas prometidas estarão no terreno no início de 2008 e sem transportes e material essencial.

Segundo Agwai, apenas 6.500 soldados integrarão a nova missão, conhecida por UNAMID, em Janeiro. Os militares da União Africana que já estão na província (até agora eram os únicos permitidos pelo governo) constituirão a sua maioria.

"É preciso que seja mesmo da ONU, com controlo e financiamento da ONU, com equipamento da ONU", defende o bispo auxiliar de Cartum.

"Ouvi dizer que as tropas africanas que lá estão (em Darfur) recebem às vezes assistência do governo sudanês, por exemplo combustível, porque não têm. Podem receber apoio logístico do governo e uma hora depois combater o governo? Não pode ser".

Para o bispo auxiliar de Cartum, "a ONU deve ter a vontade política para agir no Darfur".

"Gostava que os media internacionais que tanto trabalharam no assunto de Dafur nos últimos três anos pudessem pressionar as Nações Unidas e os diferentes governos para que qualquer programa a ser aplicado no Darfur tenha controlo da ONU e que ele não dependa do governo do Sudão, porque senão será manipulado", disse ainda.

Em relação às negociações de paz, D. Daniel Adwok defende que "qualquer acordo deve envolver todas as partes interessadas", pelo que "os `janjawid` têm que fazer parte do acordo e não podem ser deixados de fora, os `janjawid` têm de ser controlados".

"O governo deve negociar de boa-fé com o povo do Darfur ouvir as suas aspirações e preocupações, se eles pedirem autodeterminação deve ser concedida", afirmou o bispo auxiliar de Cartum.

O governo sudanês assinou um acordo com um grupo rebelde em Maio de 2006, mas outros grupos recusaram e muitos fragmentaram-se desde então o que complica o processo.

As negociações iniciadas em Outubro, na Líbia, foram adiadas para este mês porque alguns chefes rebeldes não compareceram, mas ainda não está marcado nenhum outro encontro.

"O governo chega (às negociações), mas deixa os `janjawid` no terreno, fazendo o que lhes apetece, indo às aldeias e perseguindo as pessoas", assinala D. Daniel Adwok.

Considera ainda que o facto de praticamente não ter sido aplicado o acordo conseguido no sul do país há três anos também preocupa a população do Darfur.

"Este é também o receio das pessoas de Darfur, pensam que este governo não é sincero. Se fizermos um acordo com ele como é? Porque no sul até agora praticamente nada foi implementado", disse.

O bispo auxiliar de Cartum iniciou sexta-feira uma visita de 10 dias a Portugal promovida pela Fundação Ajuda à Igreja que Sofre, instituição dependente do Vaticano e que integra a Plataforma portuguesa por Darfur.

A visita de D. Daniel Adwok foi programada para coincidir com a realização da cimeira União Europeia-África, no fim-de-semana em Lisboa, e o bispo auxiliar de Cartum participa em algumas iniciativas da Plataforma para lembrar Darfur na semana que antecede o encontro de líderes europeus e africanos.

Agência Lusa - www.lusa.pt

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