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Europa tem de tratar "de igual para igual" com África, diz Gomes Cravinho
04-Dez-2007
A União Europeia deve libertar-se da "bagagem colonial" na relação com África, reconhecendo que o continente é hoje "um igual" com "progressos notáveis" nos últimos anos, defendeu hoje o secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e Cooperação de Portugal.
João Gomes Cravinho, que falava na Conferência Internacional de Lisboa, salientou que "a África" que vem a Lisboa para a cimeira a dois continentes do próximo fim-de-semana é substancialmente diferente da que esteve na primeira, no Cairo em 2000, o que permite inaugurar uma nova forma de relacionamento, que ultrapassa o "pós-colonialismo".
"A nossa tendência para nos focarmos nos aspectos difíceis do continente tende a ofuscar o que de notável se fez", disse hoje o secretário de Estado, na conferência organizada pelo Instituto de Estudos Estratégicos Internacionais (IEE), subordinada ao tema "A Europa e África num Mundo Multipolar".
Exemplo dos "desenvolvimentos positivos" em África é a afirmação da União Africana (UA), que "tem uma capacidade de intervir muito superior" do que a da sua antecedente OUA, defendeuo governante português.
O novo bloco africano "é um interlocutor necessário para a UE, sem o qual não era possível um relacionamento mais ambicioso" entre os dois continentes, disse Gomes Cravinho.
A transformação na generalidade dos países africanos "não foi cosmética, foi profunda", afirmou o secretário de Estado na abertura da conferência de dois dias no Centro Cultural de Belém.
Uma vez que é do interesse europeu a paz e o desenvolvimento no continente vizinho, os 27 devem ser "capazes de se projectar para África de forma mais isenta, olhando com maior clareza para os interesses dos dois continentes".
Gomes Cravinho, frisou que a formação do bloco europeu teve início numa altura em que alguns países fundadores ainda tinham importantes laços coloniais, e que daí se evoluiu para uma relação pós-colonial, de relacionamento entre países independentes, mas ainda sob o signo do período colonial.
Hoje, defendeu, o "alargamento da União Europeia para 27 tem de reflectir-se numa transição do período pós-colonial para algo mais, que deixa mais longe essa herança", até porque muitos dos novos Estados-membros não têm qualquer passado colonial.
O novo relacionamento, que a Cimeira de Lisboa inaugura, "exige maior maturidade política", e que "a África seja tratada de igual para igual sem o peso da bagagem histórica", defendeu.
Com 12 novos Estados-membros - a Leste, Nordeste, Sudeste - a União Europeia passa a ter novas fronteiras e a olhar para partes do mundo com que um país como Portugal tem pouco contacto, e a África e Mediterrâneo estão menos presentes nas políticas externas de alguns destes países.
Mas, defendeu o secretário de Estado, "África não passou a ser menos relevante, a forma de trabalhar com o continente tem é de sofrer transformações" para adaptar-se às novas realidades dos dois lados.
Numa altura em que "depois do alargamento a 27, a Europa está à procura de uma nova maneira de estar no mundo", o Tratado de Lisboa, a ser assinado dentro de pouco mais de uma semana em Lisboa, é também "um novo instrumento para a projecção da Europa no mundo", afirmou Gomes Cravinho.
Para o secretário de Estado português, a Europa é "importante para os desafios de governação a nível global", nomeadamente na resolução de problemas "que há alguns anos não se punham", de que são exemplo as alterações climáticas e as migrações.
Problemas como estes, defendeu, demonstram ser mais eficazmente tratados continente a continente do que de país a país ou mesmo ao nível das Nações Unidas, onde se exige um consenso "à escala planetária".
"A União Africana, como voz de África, e a União Europeia, como a da Europa, são parceiros fundamentais na gestão da multipolaridade global", afirmou.
Segundo Cravinho, "há razões para algum optimismo" em relação à Cimeira de Lisboa, atendendo às "ambições" contidas nos documentos que estão em cima da mesa, como o Plano de Acção.
No mesmo painel, o presidente da organização não governamental angolana ADRA, Fernando Pacheco, afirmou que África está a viver um "renascimento cultural" e económico, o que muitas vezes os europeus não reconhecem.
Além disso, referiu, encontra parceiros alternativos à Europa - como a China ou os Estados Unidos - e também por isso os africanos têm maior capacidade para impor as suas prioridades de desenvolvimento.
No mesmo sentido, José Manuel Briosa e Gala, representante pessoal para África do Presidente da Comissão Europeia e antigo secretário de Estado dos Negócios frisou que o continente africano é hoje "mais cortejado" pelos diversos pólos globais, o que "tem muito a ver com o petróleo e os metais preciosos, mas não só".
Para o ex-secretário de Estado, "vai ser muito difícil à Europa competir no curto prazo" em África com a China, que tem capacidade de agir com maior prontidão, nomeadamente através da disponibilização de créditos.
Mas, afirmou, enquanto a União Europeia presta ajuda ao desenvolvimento com donativos, a China permite a construção de infra-estruturas através de créditos, que são pagos com as mercadorias que exporta e, a prazo, vêm "criar um novo endividamento" em África.
A postura chinesa está ainda a "criar algumas dificuldades" na abordagem a problemas como o do Sudão, cujo governo aplica as receitas de venda de petróleo à China na compra de armamento do gigante asiático, depois utilizado nos conflitos a nível interno, como o do Darfur.
Por isso, defendeu, "a Europa é o parceiro natural de África, pela complementaridade das suas políticas, que assentam no apoio de políticas dirigidas pelos próprios africanos".
Agência Lusa - www.lusa.pt
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