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Imprensa chinesa contrasta relações entre chineses e africanos com conflitos entre a Europa e África
10-Dez-2007

A imprensa oficial chinesa retrata hoje em tons negativos a cimeira União Europeia (UE)-África do fim-de-semana, com os jornais chineses a contrastar as boas relações entre China e África com as divisões entre os líderes africanos e europeus.

"África diz não à UE quanto aos acordos comerciais", diz o China Daily, jornal oficial em língua inglesa, que escolheu como a notícia principal da sua secção internacional a cimeira que decorreu em Lisboa e que tinha como um dos pontos da agenda a reflexão sobre como lidar com a crescente presença da China em África.

A cimeira teve assim consequências políticas para a China, país que responsáveis europeus encaram cada vez mais como uma potência rival em África, até porque Pequim, para além de empréstimos a juros baixos e perdão de dívidas, oferece aos países africanos ajuda ao desenvolvimento sem condições políticas, sociais ou ambientais.

Não é de estranhar, portanto, que a imprensa chinesa, toda ela governamental, adopte hoje uma linha negativa, com títulos como "Desaire nos esforços da cimeira para criar nova parceria económica" (China Daily) ou "Colisão na Cimeira UE-Africa", segundo o Beijing Youth Daily, publicado em chinês, que afirma também que, durante todo o encontro "o cheiro da pólvora foi muito forte".

"A maioria dos líderes africanos rejeitaram os novos acordos comerciais propostos pela EU, dando um infligindo um golpe nos esforços para a criação de uma nova parceria económica na primeira cimeira UE-África em sete anos", considera o China Daily.

A Nova China, a agência noticiosa do governo chinês, noticia também que "os líderes africanos e da UE terminam cimeira com divisões quanto a direitos humanos e comércio".

"É obvio que os dois continentes não têm as mesmas prioridades nem dão a mesma importância a alguns valores", refere a Nova China, que afirma também que o "cenário estava preparado para um confronto" quando o primeiro-ministro português José Sócrates, que liderou a delegação europeia enquanto presidente em exercício do Conselho da UE, "abriu a cimeira pondo no centro os direitos humanos e a imigração".

A edição chinesa do Diário do Povo, jornal oficial do Partido Comunista Chinês, o partido único no poder no país, acusa por sua vez "alguns europeus" de ainda não se terem desembaraçado da mentalidade colonial.

"Os tempos mudaram mas alguns europeus ainda se agarram teimosamente ao período colonial e mantêm uma posição de altivez em relação a África, fazendo críticas e comentários indiscretos, adoptando um atitude de `salvadores`, tomando como caridade o dever de ajudar, ligando frequentemente a ajuda ao desenvolvimento aos `direitos humanos`e à `democracia` e usando sanções como ameaças", opina o Diário do Povo.

Em contraste, a imprensa chinesa, quer em notícias paralelas quer em comentários por ocasião da cimeira, louva as relações entre a China e o continente africano, rebatendo acusações de neo-colonialismo chinês e acusações de que o interesse de Pequim nos recursos naturais africanos leva a China a apoiar regimes corruptos ou que violam os direitos humanos.

"Os países desenvolvidos deveriam ver-se livres da mentalidade colonial e não exigir quaisquer condições políticas no apoio a África, se querem reforçar os laços com o continente", considera o China Daily, citando "observadores".

Apesar das relações históricas com o continente, os países europeus enfrentam cada vez mais dificuldades na competição com a China por influência e poder em África, uma vez que Pequim oferece ajuda ao desenvolvimento sem condições e financia e subsidia a construção de grandes projectos de infra-estruturas em África.

"A ajuda económica a África não deveria estar ligada aos assuntos internos dos países africanos, tais como direitos humanos e democracia", diz o China Daily, citando Yuan Shanguy, professor de Ciência Política na Universidade de Xangai.

O jornal cita ainda as palavras de outro académico, Zhang Haibing, afirmando que a "UE e os seus membros falharam na construção de um verdadeira parceria com os países africanos", ao mesmo tempo que refere que graças à "aplicação séria por parte da China de políticas de ajuda ao desenvolvimento, as relações China-África estão cada vez mais próximas".

Com um volume de 200 mil milhões de euros em 2006, a Europa é ainda o maior parceiro comercial de África, mas a China aproxima-se cada vez mais, tendo sido em 2006 o terceiro maior parceiro comercial do continente, com um volume de 43 mil milhões de euros, mais 40 por cento que em 2005.

A Nova China aproveitou a cimeira de Lisboa para noticiar a opinião de Javier Santiso, economista-chefe da área de desenvolvimento da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), que considera que "o crescente interesse em África por parte de economias como a China é uma boa notícia para o continente".

A agência oficial chinesa considera também como "injustas" as críticas de neo-colonialismo ou do interesse dos chineses nos recursos africanos e afirma que "as relações entre a China e a África não se concentram apenas em minérios e petróleo, como os críticos alegam, mas também na construção de infra-estruturas e telecomunicações".

Segundo estimativas do governo chinês o comércio bilateral poderá superar os 100 mil milhões de dólares (68,25 mil milhões de euros) até 2010.

Agência Lusa - www.lusa.pt

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