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Jorge Sampaio considera que não cabe à UE o papel de "curandeiro" do Zimbabué
05-Dez-2007

O ex-Presidente da República portuguesa, Jorge Sampaio, considera que não cabe aos países da União Europeia serem "os corajosos ou os curandeiros", no que respeita a questões internas do Zimbabué, podendo apenas "ajudar numa solução".

"Nós não podemos pensar que somos os corajosos ou os curandeiros, nós podemos é ajudar numa solução e ajudar a não transformar o essencial da cimeira, por causa da tragédia que sabemos que existe num determinado país", afirma o actual alto representante da ONU para o Diálogo das Civilizações à Agência Lusa.

"Até porque, como já compreendemos, são os africanos que terão de encontrar uma solução para esse problema (do Zimbabué)", sublinha.

Jorge Sampaio recorda-se da passagem do Presidente do Zimbabué, Robert Mugabe, em 1993 por Lisboa, onde foi recebido e elogiado por figuras que ocupavam então alguns dos principais cargos do Estado português: o Presidente da República, Mário Soares, o primeiro-ministro, Aníbal Cavaco Silva, e presidente da Câmara de Lisboa - o próprio Jorge Sampaio.

Vários líderes africanos discursaram na Voz do Operário, lembra Jorge Sampaio, sublinhando que as personalidades foram recebidas num contexto bastante diferente do actual.

Os líderes africanos "foram recebidos em Portugal, como espaço de luta anti-colonial, um espaço de luta anti-apartheid".

Em 1993, Robert Mugabe, além de chefe de Estado do Zimbabué, era também presidente do grupo da "Linha da Frente", criado para combater a política de apartheid sul-africana.

Mas "a situação não era o que é hoje, isso todos o sabemos", realça Sampaio.

Segundo as agências humanitárias, mais de quatro milhões de pessoas estarão actualmente necessitadas de assistência alimentar de emergência no Zimbabué, em consequência da quebra de produção agrícola, iniciada com a reforma agrária de 2000, que levou à expulsão de mais de quatro mil latifundiários brancos, e recentemente agravada por um período de seca.

"O Zimbabué é um assunto grave que a África tem, que o mundo tem, mas que não pode fazer esconder a gravidade de outros assuntos que estão em cima da mesa", considera Jorge Sampaio. E o alto representante da ONU teme que "a Cimeira UE/África esteja a perder o todo em função da pequena parte".

Para o representante da ONU, a cimeira deve debater os direitos humanos no geral, "mas esse não pode ser o único ponto de discussão".

Sobre a Cimeira UE/África do próximo fim-de-semana, Sampaio argumenta que há a possibilidade de convergir todos os esforços, deixando de lado a discussão académica, para alcançar novos instrumentos de acção.

A cooperação UE/África tem a possibilidade de "passar de uma ajuda ao desenvolvimento muito simples para uma parceria estratégica fundamental com obrigações de resultado", afirma o alto representante para o Diálogo das Civilizações.

"A cimeira em Portugal deverá dar um salto qualitativo muito importante e, sem fazer mais documentos iguais aos outros, transformar as necessidades e carências (de África) em instrumentos" capazes de as ultrapassar, argumenta.

Jorge Sampaio vê também o interesse actual em África como "inevitável".

"Não somos todos crianças sem perceber o que está em causa", afirma o antigo chefe de Estado, sublinhando que "há muitos recursos que também estão em causa".

"Estou farto de ver acções que não são multilaterais, que são a busca desenfreada de matérias-primas a todos o custo", desabafa o ex-Presidente da República.

"Não podemos ter dispersão de meios sem eficácia de resultados", acrescenta Sampaio, numa alusão ao plano Africom, um novo comando militar dos EUA para África, com o objectivo de proteger interesses norte-americanos no continente.

O alto representante aborda também sobre o seu mais recente trabalho na ONU, onde tem "apresentado condições essenciais para que os objectivos (relativos à saúde no continente africano) sejam alcançados".

Sampaio reforça a sua preocupação "pelas grandes pandemias existentes em África", nomeadamente a tuberculose, a malária e o flagelo do VIH/Sida, este último responsável por 22 milhões de infectados só na África sub-sariana, segundo os últimos dados da ONU.

"Penso que é possível (no quadro da parceria UE/África) fazer convergir iniciativas na base de planos nacionais, pois sem isso não vamos a parte nenhuma", conclui Jorge Sampaio.

Agência Lusa - www.lusa.pt

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