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Carlos Veiga/Entrevista: "Vejo com bons olhos uma relação especial com a NATO"
04-Fev-2006
Carlos Veiga. Foto: PúblicoCarlos Alberto Wahnon de Carvalho Veiga, antigo primeiro-ministro de Cabo Verde, é um advogado de 56 anos. Fundou em 1990 o Movimento para a Democracia (MpD), à frente do qual governou o país de 3 de Abril de 1991 a 29 de Julho de 2000.

 É natural do Mindelo, ilha de São Vicente. Em 2001, candidatou-se à Presidência da República, tendo sido vencido por apenas 12 votos. Agora, nas presidenciais do próximo dia 12, volta a enfrentar Pedro Pires, candidato apoiado pelo Partido Africano para a Independência de Cabo Verde (PAICV).

PÚBLICO - O MpD pediu a impugnação dos resultados das legislativas de 22 de Janeiro, alegando uma grande fraude. O que passa?

CARLOS VEIGA - Isso são questões das legislativas. A minha candidatura não está ligada às legislativas. Temos o nosso trabalho. São duas eleições independentes. O que posso dizer é que tínhamos detectado situações de o mesmo número de bilhete de identidade pertencer a várias pessoas e algumas situações em que a mesma pessoa tem dois documentos de identificação. Achamos que isso pode ser corrigido com as tecnologias disponíveis e pedimos à Comissão Nacional de Eleições que adoptasse medidas.

Quantas pessoas estão inscritas nos cadernos eleitorais?

Talvez um pouco mais de 180.000 pessoas. Mas com os recursos que existem é possível sanar a generalidade das irregularidades. Acreditamos na CNE, dirigida por Bartolomeu Varela.

A diáspora cabo-verdiana tem papel importante?

Temos 50.000 eleitores fora do país. Para o resultado oficial das presidenciais de 2001, ganhei por quase 2000 votos nas ilhas e perdi na emigração por essa diferença mais 12. Por isso é que tenho andado agora por Portugal, França, Luxemburgo, Itália, Holanda, Estados Unidos e São Tomé.

O que pretende ao candidatar-se?

Julgo que poderei dar uma contribuição relevante para uma presidência mais activa no exercício dos poderes que a Constituição atribui ao Presidente. Precisamos de um Presidente que não aceite nenhuma violação da Constituição seja sob que pretexto for. Pedro Pires não valoriza suficientemente a Constituição cabo-verdiana. (...) O Governo governa plenamente e ao Presidente da República cabem funções importantes de moderação e equilíbrio do sistema político. Pedro Pires tem estado omisso para defesa de direitos e garantias constitucionais. Nunca exprimiu opinião sobre os grandes problemas do país. Tem que ter opinião, até para ajudar o Governo e governar bem. Tem de dar sugestões.

Quais são os seus apoios?

Extravasam do MpD. Tenho apoio de personalidades de outros partidos políticos. Tenho apoio até de gente do PAICV. Tenho uma base de apoio que sempre foi, e desta vez também é, muito maior do que o MpD. O presidente da União Cabo-verdiana Independente e Democrática (UCID, que elegeu dois deputados), António Monteiro, faz parte da minha comissão de honra, tal como as pessoas do Partido da Convergência Democrática, resultante de uma cisão no MpD.

Cabo Verde está a aproximar-se mais da UE e da NATO, enquanto manifesta reservas quanto à continuação na Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO)...

A busca de uma relação especial com a UE vem do meu tempo no Governo. Temos uma paridade fixa entre o escudo cabo-verdiano e o euro. Vejo com bons olhos a busca de uma relação especial com a NATO, embora seja sempre necessário tratar esses assuntos com a maior discrição. E existe na sociedade cabo-verdiana um grande desconhecimento dos objectivos da CEDEAO, pelo que a grande maioria é contra. Deveríamos fazer um grande esforço de informação e só depois disso organizar um referendo sobre a eventual saída de tal comunidade. Cabo Verde tem de ter âncoras com a costa ocidental africana, com a UE, os Estados Unidos, o Brasil e outros países que despontam com muita intensidade, como a China, que tem um peso cada vez maior. A política externa tem de ter vários eixos.

Se viesse a ser eleito, conseguiria coabitar com um governo do PAICV?

Não teria dificuldade nenhuma em coabitar com um governo do PAICV. Acho que os órgãos de soberania têm como parâmetro a Constituição, à luz da qual as funções são distintas e a colaboração institucional é imposta. Respeito o voto popular e, se ele foi no sentido de que cabe ao PAICV governar, tem o direito de o fazer, sem que o Presidente da República interfira. Tem é de colaborar; mas é claro que isto não significa que seja um apêndice de qualquer Governo.

Jorge Heitor, (PÚBLICO)
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