Moçambique: Enfrentar "maldição" dos recursos naturais é um dos maiores desafios, diz o BPI
04-Dez-2007
Moçambique vai ter de enfrentar a "maldição" dos recursos naturais, que tornam o país mais independente em relação ao exterior, mas também potencialmente mais opaco na contabilidade e gestão pública, como outros na região, deu a conhecer segunda-feira o Banco Português de Investimentos (BPI).
Para enfrentar o referido desafio, os economistas BPI consideraram em relatório hoje divulgado que se "impõe o crescimento dos esforços de monitorização da gestão pública, melhorando o seu controlo e transparência".
"Para o futuro estar assegurado, Moçambique tem de mostrar que, para além de um caso de sucesso na gestão do auxílio internacional, é capaz de escapar à maldição da ajuda externa e da exploração de recursos naturais, assegurando a melhoria da qualidade de vida das populações e o surgimento de empreendedorismo local indispensável à acumulação de capitais domésticos", lê-se no relatório.
O país possui importantes reservas de carvão, cuja exploração envolve já multinacionais como a brasileira Companhia Vale do Rio Doce e captou também o interesse da indiana Tata Steel e Arcelor Mittal, e tem no gás natural uma das principais exportações, numa altura em que se aguardam resultados dos trabalhos de exploração de petróleo.
Para as economistas Cristina Casalinho e Paula Carvalho, que assinam o estudo, "o sucesso da economia moçambicana passa pela criação de motores de crescimento sustentável", nomeadamente na agricultura, na agro-indústria, no fornecimento de serviços aos países vizinhos do interior do continente e no turismo.
Na última década, a economia moçambicana cresceu em média oito porcento ao ano, e nos últimos cinco anos o ritmo de expansão acelerou para 8,9 porcento, principalmente graças ao investimento estrangeiro e à ajuda externa.
Dado que é esperado um abrandamento nos próximos anos, Moçambique tem de "encontrar um motor sustentável de crescimento", refere o BPI.
O BPI apresenta-se como um dos grandes desafios para o país, tanto mais que o contexto é de globalização e o país "dispõe de limitadas vantagens competitivas", acrescenta a fonte.
Outros importantes obstáculos a transpor são "a gestão da integração económica regional com países com a dimensão da África do Sul" e a "contenção da epidemia do HIV/SIDA, que tende a afectar mais a população urbana, tendencialmente mais escolarizada, pondo em causa parte dos actuais investimentos na promoção da qualidade da força de trabalho".
Os progressos a nível social, em particular na redução da pobreza, têm sido importantes, mas o cumprimento das metas fixadas pelos Objectivos de Desenvolvimento do Milénio das Nações Unidas exigem maiores gastos, numa altura em que a inflação é alta em comparação com os países vizinhos e o equilíbrio das contas públicas é "precário".
"A sustentabilidade do crescimento económico exige acréscimo de produtividade e maior espaço ao sector privado", afirma o BPI.
Isto, adianta, implica "consolidação da estabilidade macro-económica e melhoria da competitividade mediante a adopção de políticas monetárias e fiscais prudentes, progressos no ambiente de negócios e de investimento, fomentando a criação de emprego e aumentando a transparência e responsabilização das instituições", refere-se no relatório.
O BPI aponta como uma das principais fragilidades actuais a forte dependência externa, numa altura em que metade do Orçamento de Estado do país provém de doações de parceiros.
Perto de 70 porcento da produção industrial e metade das exportações têm origem em apenas um dos chamados "mega-projectos" - a fábrica de alumínio Mozal, da multinacional BHP Billiton, nos arredores de Maputo.
"O principal desafio da economia moçambicana é garantir um crescimento sustentável e disseminado, abrangendo todos os sectores de actividade", acrescenta-se no relatório.
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