| Antropólogo angolano lança biografia sobre Amílcar Cabral |
| 20-Nov-2007 | |
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O «pai» das independências da Guiné-Bissau e Cabo Verde, Amílcar Cabral, foi «um fazedor de utopias», que enfrentou muitas contradições pessoais e no movimento de libertação que liderou, acabando por morrer precisamente por causa delas.
A convicção é do antropólogo e antigo jornalista angolano António Tomás, ao comentar à Agência Lusa a fugura de Amílcar Cabral, dias antes de lançar, em Lisboa, a biografia que escreveu sobre o nacionalista cabo-verdiano nascido na Guiné-Bissau, intitulada «O Fazedor de Utopias». Recusando o «politicamente correcto» - «por uma questão de rigor e de factualidade» -, o autor do livro, a lançar quarta-feira na Casa Fernando Pessoa, apontou, «entre muitas», quatro contradições na vida e obra de Amílcar Cabral, geralmente caracterizado como um dos idealistas mais importantes da história recente do continente africano. «Não se pode falar em erros, mas em contradições. Há muitas mas a mais importante talvez seja a relacionada com a sua própria identidade, pois formou-se profissional e culturalmente em Portugal e pensava como português», sublinhou. No entender de António Tomás, a ideia de Cabral, assassinado em Janeiro de 1973 (um crime que nunca foi totalmente esclarecido), oito meses antes da declaração unilateral da independência da Guiné-Bissau, a ideia da «reafricanização dos espíritos» esbarrou na «verdadeira cultura africana». «Da teoria à prática foi muito duro, pois sempre pensou que a mística africana fora apagada pela colonização, o que não se verificou», sustentou o antropólogo, dando como exemplos os casos, ainda hoje actuais, da «excisão feminina» e da «dominação masculina». A lógica da «guerra anti-colonial», por si só, é, segundo os valores defendidos por Cabral, outra das contradições importantes entre a teoria e a prática de um homem que «tentou um meio termo entre o ideal comunista de Mao Tsé Tung - o poder da classe camponesa - e de Ernesto Che Guevara - o poder da revolução de quadros». «Errou, aí sim, ao tentar expandir a guerra para Cabo Verde, embora não o tenha conseguido, apesar do sonho irrealista de defender a unidade entre guineenses e cabo-verdianos», sustentou António Tomás, natural de Luanda, onde nasceu a 11 de Abril de 1973. Outra «contradição» é de «cariz mais pessoal», apontou, dando como exemplo, «um humanista que acabou por defender a guerra (1963/74) como meio para alcançar a independência», em que foi «obrigado a tomar medidas drásticas e contrárias» aos seus próprios ideais. «Amílcar Cabral tinha um lado ingénuo muito grande. Entregou-se generosamente à causa da independência, na qual depositava uma grande esperança. Acreditou até ao fim, mesmo quando começaram algumas traições dentro do próprio PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde)», defende o autor do livro que, apesar de tudo, o considera como «um grande pensador e nacionalista». Os elogios a Amílcar Cabral feitos por António Tomás, actual doutorando em Antropologia pela Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, onde reside desde 2004, sobem de tom quando fala sobre o seu lado prático. «Era um homem muito prático, embora agarrado à teoria. Tentou resolver as contradições mas não conseguiu. A guerra não se faz com um homem só. Tentou tudo, mas era o único que pensava e esqueceu-se do resto: que há outros que também pensam», sublinhou o autor, licenciado em Comunicação Social, pela Universidade Católica de Lisboa e colaborador do Jornal de Angola e Angolense. «Tentou sobretudo conciliar as revoluções campesinas (de Mao Tsé Tung) com as de quadros (de Che Guevara). Foi o primeiro a colocar grande parte do esforço de guerra ao serviço da organização das zonas libertadas e, paralelamente, a travar o conflito com Portugal nas frentes interna e diplomática», advogou o autor. No primeiro caso, promoveu a educação, saúde e os armazéns do povo nas zonas libertadas e, no segundo, privilegiou os contactos internacionais, sustentou António Tomás, deixando no ar a questão sobre se havia mesmo a necessidade de se partir para o conflito com o regime colonial de Lisboa. Quanto à morte de Amílcar Cabral, abatido em Conacri a 20 de Janeiro de 1973, afirmou que as dúvidas sobre os mandantes e executantes «são muitas», mas defendeu que o assassinio foi «consequência» de não ter conseguido resolver as contradições do movimento de libertação que liderou durante mais de década e meia. «A história do homem que liderou a independência das colónias portuguesas em África», tal como o autor definiu no livro, é considerada pelo escritor angolano José Eduardo Agualusa uma obra importante. Diário Digital / Lusa Comentários (0)
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