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Entrevista a Mayra Andrade: O canto do coração
21-Jul-2006
Mayra Andrade Mayra Andrade apresenta-se como a mais recente descoberta da música cabo-verdiana. Recente, talvez seja fruto de um desconhecimento que «Navega», o álbum de estreia, veio colmatar. A menina-mulher que destaca Caetano Veloso como a primeira referência, nasceu em Cuba, atravessou o Senegal, Angola, Alemanha, mas é em Cabo-Verde que se emociona, transforma e sonha. Ainda saboreia as duas décadas de existência mas domina mornas, coladeiras e funana com uma destreza, sentido pop e maturidade impressionante. A voz firme de Mayra Andrade em discurso para o Diário Digital.

«Navega» partiu de Cuba e atravessou diferentes mares. A evolução e procura a conduzir uma personalidade, assumidamente, nómada.

«Fazer música, mais do que gravar um álbum, foi sempre o meu desejo. A gravação de um álbum faz parte desse percurso. Mas não é o objectivo final. O objectivo supremo é evoluir, aprender, enriquecer a música que fazemos. É uma caminhada que se espera ser longa. Tive outras oportunidades de gravar o disco mais cedo que preferi não aproveitar. A primeira vez que pediram à minha mãe se podia gravar tinha eu 11 anos. Dos 11 aos 21 cruzei-me com muita gente que me propôs gravar um disco. E é preciso encontrar a forma, a linguagem que queremos ter num disco. Porque um álbum é eterno, ou podemos desejar que o seja. Durante os 6 anos de palco, escolhi o que gostava, e sobretudo, o que não gostava».

De um lado, a ponderação. Do outro, o instinto.

«Quis gravar de forma muito espontânea. Não haviam muitos arranjos pré-definidos. Defini estruturas e tonalidades, mas o disco nasceu em estúdio como que numa tocatina. Cada música impôs-se por si mesma. Houve um momento em que tinha músicas a mais. E decidi escolher, tocando. Dois dias antes de entrar em estúdio ainda tínhamos quatro músicas a mais. Mas não é só a música e melodia, mas também o que estou a cantar e o que diz aos outros. A reacção que provoca nos outros. Há uma parte de racional e uma certa irracionalidade. É um disco que teve tempo para amadurecer em mim, mas que em grande parte, tem muito instinto, criatividade colectiva e da sensibilidade de cada um. A partir daí podemos arriscar e ir para o desconhecido».

Precavendo o incómodo do desconhecido, muitos teimam em apontar Cesária Évora como uma guia para a compreensão da carreira de Mayra Andrade.

«Até certo ponto compreendo, porque quando num País só se conhece uma grande artista, é a única referência. Mas confio que daqui a uns anos isso vai mudar, Há cada vez mais cabo-verdianos a surgir. Entendo o que as pessoas querem dizer, e não é uma crítica negativa. Por um lado fico contente, mas por outro incomoda. Porque a Cesária é a Cesária. E ninguém está aqui para se sentar na cadeira de ninguém. Fala-se da nova Cesária Évora e até parece que ela já morreu! E a Cesária está vivinha e contina a fazer o grande trabalho que tem feito há anos. Tem que se aceitar que um pequeno País como Cabo-Verde tenha uma constelação de artistas».

Uma colaboração com Charles Aznavour, em 2005, cimentou o perfume de uma voz crioula no território da língua francesa. Uma relação forte que ultrapassa a tradução de histórias universais. O tema «Comme S`il En Pleuvait» como materialização de sonhos.

«A minha relação com a francofonia data de há muito tempo. Aprendi a escrever em francês, quando morava no Senegal, com seis anos. A maior parte da minha escolaridade foi em francês. Também vivi em França. É uma forma de retribuir algo que me alimenta em França. A música nasceu de uma história que contei ao compositor do tema. Fala de uma senhora que se chama Emília, que vive na cidade da Praia. Uma mendiga. Tenho por hábito de conversar com ela. Um dia ela pegou-me na mão e disse-me que no passado também tinha sido «uma princesa como tu». Essa frase teve muita força. Contei ao compositor e ele de uma forma muito bonita imaginou como tinha sido a vida da senhora.

A viagem intercontinental resulta numa paixão crescente por Cabo-Verde. A tradução das letras para a compreensão total da obra.

«Coloquei a tradução das letras em francês e inglês porque muita gente já sente a música, mas seria perder uma grande parte do sumo da laranja ao deixar a letra num enigma. As pessoas costumam dizer que fazem uma viagem quando ouvem as letras. Amo o meu País profundamente. Ás vezes, ao falar, entusiasmo-me tanto que começo a chorar de alegria e saudade. Isso é contagiante, só que não conhecem e ficam com vontade de vir a conhecer. Creio que é positiva a diferença cultural porque só nos aproxima».

Próximas. Muito próximas vão estar diferentes culturas no Festival de Músicas do Mundo, em Sines, que tem início já esta sexta-feira (21 de Julho).

«Fico feliz que exista esse tipo de festival em Portugal, em que o público tem a oportunidade e a sorte de ter acesso a esse tipo de festival. Tem que se entender e valorizar esse tipo de festival, porque há lugares onde isso não existe. Normalmente, para conhecer a música cabo-verdiana, ou do Mali, ou da Rússia, é preciso lá ir. É o mundo todo que está a vir ter com o público português. É uma forma de dar a volta ao mundo sem ter que pagar o bilhete».

Disco Digital - http://diariodigital.sapo.pt/disco_digital

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