| Gémea da mais antiga cidade de Cabo Verde, candidata a Património Mundial… |
| 18-Mar-2007 | |
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A Cidade Velha, em Santiago, candidata a Património Mundial e tida como a primeira cidade de Cabo Verde, tem uma irmã gémea, Alcatrazes, de que apenas restam pedaços de uma igreja.
Localizada na parte oriental da ilha de Santiago, perto de uma baía desolada, Alcatrazes teria sido a segunda povoação de Cabo Verde, desenvolvida ao mesmo tempo que Ribeira Grande (Cidade Velha), mas rapidamente abandonada devido à aridez do local. Hoje restam os escombros de uma igreja que o padre António Cachada procurou reconstruir nos anos 70, pondo de pé, da melhor forma que soube, paredes que tinham ido parar ao mar, e dando alguma dignidade a um lugar que servia para as cabras exercitarem os seus saltos. Mais tarde, mesmo ao lado da velha construção, fez-se uma nova igreja. Do conjunto resultou uma aberração arquitectónica. Os vestígios históricos de Alcatrazes correm o risco de desaparecer completamente. Para António Cachada é grave se tal acontecer. É uma parte importante da história do país que desaparece. A história começa em 1460, quando as ilhas de Cabo Verde foram encontradas, no tempo do Infante D. Henrique, por António de Noli (genovês ao serviço da coroa) e Diogo Gomes, navegador português (as ilhas do Barlavento, Santo Antão, São Vicente e São Nicolau, foram encontradas depois). O reino decidiu então povoar a maior ilha, Santiago, dividida em duas capitanias. António de Noli chegou à Ribeira Grande como capitão-donatário dois anos após a descoberta, com família, amigos e trabalhadores contratados, estabelecendo o primeiro povoado. Logo a seguir Diogo Afonso começou a edificar Alcatrazes, que começou a ser abandonada cerca de 50 anos depois. Ilídio do Amaral, no livro «Santiago de Cabo Verde, a terra e os homens», escreve que Alcatrazes, “situada sobre uma achada árida e pedregosa”, começou a ver desaparecer as primeiras casas em 1516. “Parece restar a pequena e singela capela de Nossa Senhora da Luz, muito semelhante a outras capelinhas dos primeiros tempos de colonização”, diz o livro. O escudo ainda está lá, não na igreja mas colocado na parede de uma pequena capela de memória que o antigo padre da localidade António Cachada mandou construir. Diz que tudo o que fez na que será a segunda mais antiga igreja de Cabo Verde foi para a proteger, porque “a parte Norte caiu”, bem como o arco em ogiva e parte do altar. “Juntamos tudo com pedra seca para que, se fosse preciso, poder tirar-se”, justifica, explicando que a pequena capela que mandou construir ao lado da antiga igreja também serviu para guardar as pedras tumulares encontradas degradadas em frente do templo. António Cachada já não é pároco em Nossa Senhora da Luz, mas como o actual responsável pela igreja, o padre Fernando, gostaria de ver o monumento preservado. Sinais do tempo Prioridades e pé descalço Eram outros tempos, dos quais em Alcatrazes nada resta. Hoje não sobrevive sequer a antiquíssima pia baptismal que existia entre os restos da igreja, rebentada no ano passado na sequência do calor de velas acesas que lhe puseram dentro. E dos azulejos que adornavam as paredes resta apenas meia dúzia, depositada agora numa pia de água benta, aparentemente também quinhentista, ao fundo da arrecadação. E se calhar, além dos padres, ninguém se importa com o cenário de abandono actual. Quando se vê, aos domingos, aqueles que chegam à nova igreja, caminhando descalços ou de chinelos por caminhos pedregosos, com os sapatos na mão para não os estragar, entende-se que, na cidade em ruínas, deverá haver prioridades mais importantes do que azulejos e pedras de há 500 anos. Fernando Peixeiro (Agência Lusa) Comentários (2)
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