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O cabo-verdiano é a segunda língua mais falada em Portugal
10-Abr-2006
Nicolas QuintNicolas Quint acaba de publicar em França o livro «Le Créole Capverdien de Poche» (editora Assimil ), estando agora a preparar a versão portuguesa desta obra, junto com a linguista Mafalda Mendes. Em Portugal - onde passa a maior parte do ano - contribuiu, como co-autor, para a publicação do primeiro «Dicionário Cabo-Verdiano-Português» (1998) e do «Dicionário Prático Português-Cabo-Verdiano» (2002), ambos editados pela Verbalis.

O EXPRESSO Online questinou este investigador em linguística, de nacionalidade francesa, sobre a utilidade de se aprender o crioulo cabo-verdiano.
EXPRESSO Online - Em plena era da globalização, qual a importância do ensino e aprendizagem do crioulo cabo-verdiano?

O cabo-verdiano, com cerca de um milhão de falantes no mundo (um número comparável aos falantes do maltês ou do estoniano, línguas que ambas têm um estatuto oficial a nível da comunidade europeia), é uma língua viva e de muita utilidade para quem se quiser relacionar com comunidades cabo-verdianas e cabo-verdiano descendentes. Em Cabo-Verde, o crioulo cabo-verdiano é a língua materna de mais de 95 % da população e neste idioma é que se conversam quase todos os assuntos do país: há rádios que emitem todos os seus programas em língua cabo-verdiana. Em Portugal, o cabo-verdiano é hoje em dia a segunda língua falada no país, após o português. Não há dúvida que um certo conhecimento do crioulo cabo-verdiano seria de muito proveito aos trabalhadores sociais e professores que exercem a sua profissão nas zonas da Grande Lisboa com maior concentração de população cabo-verdiana, como Amadora, Odivelas e Oeiras.

EXPRESSO Online - Por que é que em França é possível a publicação de um livro de bolso como este?

Primeiro, é importante salientar o facto de existir uma importante comunidade cabo-verdiana instalada em países francófonos, especialmente em França (talvez 50 mil cabo-verdianos) e Senegal (várias dezenas de milhares), o que dá certo sentido a publicações em língua francesa dedicadas à língua cabo-verdiana. Depois, o êxito de Cesária Évora no mundo francófono tem despertado nesta comunidade linguística um interese particular para tudo o que diz respeito à língua e cultura de Cabo-Verde. Depois, cabe mencionar o turismo: mais e mais estrangeiros passam as suas férias em Cabo-Verde (o limite dos 100 mil visitantes anuais já está ultrapassado) e os turistas francófonos fazem parte das principais comunidades representadas neste fluxo turístico.

EXPRESSO Online - Por que não há o mesmo interesse por parte das editoras portuguesas?

Acho que tem a ver em grande parte com razões culturais e históricas. Ainda hoje, muita gente em Portugal não está convencida de que o crioulo cabo-verdiano é uma língua autónoma nitidamente diferente do português (a pesar das semelhanças lexicais existentes entre os dois idiomas) e que portanto deve ser estudada e ensinada como qualquer outra língua estrangeira. Este ponto de vista é menos difundido entre os não-lusófonos (francófonos ou outros), já que tanto o português como o cabo-verdiano são línguas estrangeiras para eles : talvez seja essa a razão que explique a relativa escassez da produção científica de língua portuguesa no que tange à língua cabo-verdiana.

EXPRESSO Online - Em quantos países fala-se crioulo, e quais as variações desta língua?

Não se fala um crioulo mas vários crioulos de base lexical portuguesa (ou seja : línguas mistas provenientes do encontro dos portugueses com diversas outras populações) em diversos pontos do globo, essencialmente na África (Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe) e na Ásia (Damão, Ceilão, Malaca, Hong Kong e Macau). No que diz respeito ao cabo-verdiano, as duas línguas crioulas mais próximas são:

- o crioulo da Guiné-Casamança, a maior língua veicular da Guiné-Bissau (1,5 milhão de habitantes), também usado como língua materna ou segunda por várias dezenas de milhares de pessoas na cidade de Zinguinchor em Casamança (Sul de Senegal). O cabo-verdiano e o guineense permitem geralmente a intercompreensão e as diferenças que apresentam são leves: por exemplo muito diz-se «tcheu» em cabo-verdiano (do português clássico cheo, «cheio») e «ciu / tchiu» em guineense.

- o papiamento, crioulo luso-espanhol das ilhas ABC (Aruba, Bonaire, Curaçao, nas Antilhas Neerlandesas), falado por mais de 300 mil pessoas. O papiamento, apesar de ser falado a mais de 6 mil quilómetros de distância de Cabo Verde, apresenta numerosas semelhanças com o cabo-verdiano: assim, a palavra «papia» significa «falar» em ambas línguas.

Maria Luiza Rolim - Expresso África - http://africa.expresso.clix.pt
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