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Tito Paris canta no Miami Beach, Ilha de Luanda
24-Set-2007
O músico cabo-verdiano, Tito Paris, uma das vozes que representa a vanguarda da nova canção de Cabo Verde, está na capital angolana para a realização de dois espectáculos (hoje e quarta-feira), no espaço Miami Beach, Ilha de Luanda. Percursor da morna, coladera e funaná, estilos musicais típicos do arquipélago, Tito Paris volta a actuar em Luanda desta feita sob a égide da Britsh Petróleos.

Tito Paris é detentor de uma guitarra, ora melancólica, ora frenética, e a sua voz dolente e "swingada", com que embala plateias inteiras, fazem dele um dos ícones da moderna música africana, que retrata a sonoridade da ascendência africana, numa dimensão cosmopolita que valoriza a cultura da comunidade cabo-verdiana na diáspora.

Em palco, Tito Paris é como que um dínamo que magnetiza as suas audiências com a entrega, a energia e a sinceridade de um grande compositor e intérprete. Este espectáculo traz propostas e tentações para dançar, adaptando ao seu carisma quase todos os géneros musicais cabo-verdianos, enquanto viaja pelos sons de África, Portugal ou Brasil, com o mesmo à vontade e dedicação.

Tito Paris é a verdadeira personificação da alma cabo-verdiana e será acompanhado por Mário Garnacho (teclas), Dalú Roger, Mias Galheta (baixo), Daniel Salomé (saxofone e clarinete) Hélio Furtado (bateria) e dois alemães, Lars (trombone de vara) Johannes (trompete), para uma apresentação musical que, à partida, se afigura prometedora.

Co-intérprete do tema Clarice (dueto com o angolano Paulo Flores), Tito Paris abranda ou acelera o ritmo, mistura influências angolanas, ou do Norte de Portugal, faz um desvio por Moçambique e evoca o frenetismo do samba brasileiro. Para grandes auditórios, Tito é acompanhado por uma orquestra composta por 7 violinos, 3 violas, 2 violoncelos, 1 contrabaixo e um naipe de 4 metais no qual se juntam os seus 5 músicos cabo-verdianos, formando um espectáculo fantástico com 23 músicos em palco.

A música de Tito Paris não tem uma única direcção, ela desmembra-se e chama a si outros segmentos que se ligam e se reencontram em várias malhas e texturas sonoras. Daí que seja fácil, para Tito Paris, incluir nos seus trabalhos tendências e intérpretes de origens diversas: Paulo Flores, Paulo de Carvalho, Manecas Costa e Rui Veloso, são só alguns exemplos.

Tito Paris é, dentre outras coisas, o resultado de uma natural genealogia artística. Nasceu numa família visceralmente musical, aliás, Cabo Verde é sinónimo de seca e música, passou pelo conjunto Voz de Cabo Verde, com Bana, e Chico Serra, este último cúmplice do seu perfil como músico. Outros monstros sagrados como o imortal Luís de Morais, Dany Silva, Paulino Vieira e Baú, primo do cantor, são, igualmente, responsáveis pela rebeldia musical de Tito Paris.

Da melancolia revelada em "Fidjo Maguado" (1987), o primeiro CD instrumental do compositor que revela a musicalidade de um guitarrista visionário, da fusão rítmica e contagiante em "Dança ma mi criola" (1994), tema paradigmático do compositor, à "Graça de Tchega" (1996) e duas gravações ao vivo no B. Leza (1998-2001), Tito Paris acusa, em "Guilhermina" (2002), a intenção de, diz peremptório, "transmitir... todas as sensações positivas que me vão na alma. Gosto muito da fusão dos ritmos cabo-verdianos com outros estilos musicais, mas a essência da música do meu povo, está sempre presente em tudo o que faço"- são as palavras do Tito Paris, que se vão transfigurar em música, no palco do Miami Beach.

Tito nasceu em Cabo Verde e tem vivido entre Lisboa e a sua terra natal durante os últimos 20 anos. Foi na capital Lusitana, onde chegou com 19 anos para tocar com Bana (uma das maiores referências da música de Cabo Verde), que Tito cresceu como músico.

O menino de São Vicente deu os primeiros passos, como profissional, aos 9 anos. Oriundo de uma família de músicos e cantores do Mindelo iniciou-se, primeiro, no violão acústico, seguindo-se-lhe, posteriormente, o baixo, a bateria e outros instrumentos, incluindo o tradicional cavaquinho cabo-verdiano, para depois se aventurar no campo da composição e interpretar as suas próprias canções.

Perfil biográfico

Quando Cesária Évora grava o seu primeiro álbum, Tito Paris já a acompanha. Escreveu para ela um tema ("Regresso") e concebeu os arranjos em que interpreta diversos instrumentos. É uma etapa, um momento, não é o começo da sua carreira. A sua história, o seu envolvimento na música começa muito antes. Mais precisamente no dia do seu nascimento, a 30 de Maio de 1963, no Mindelo, cidade principal da Ilha de São Vicente. Quando se nasce numa família em que todos são um pouco músicos, não se pode escapar à música. Como todos os outros, Tito Paris também não conseguiu resistir. A música corria-lhe nas veias desde que nasceu. Ao deambular pelo passado, lembra-se muitas vezes das suas escapadelas pelos bares, às escondidas da mãe, aproveitando as ausências do pai, quando este, marinheiro, anda embarcado. O miúdo franzino, não tem ainda dez anos, e anda sempre com a sua guitarra na qual a irmã lhe ensinou os primeiros acordes. Toca com os irmãos, com Bau, o primo, já muito hábil no cavaquinho, que se torna também ele célebre mais tarde.

Absorve os conselhos, a sabedoria e os conhecimentos do clarinetista Luís Morais, do pianista Chico Serra. Depois das discotecas, cafés e cabarets do Mindelo, Tito Paris renasce uma segunda vez. Com dezanove anos parte para Lisboa, chamado por Bana, grande cantor cabo-verdiano aí a viver, que o manda ir para tocar no seu grupo Voz de Cabo Verde. Com a cabeça cheia de sonhos, Tito Paris inicia a sua grande aventura a partir deste momento. Começa com uma pequena contrariedade. Pensava tocar baixo, oferecem-lhe a bateria. Está a dois passos de recusar, e até de regressar a Cabo Verde, quando a sorte lhe bate à porta. O baixista vai-se embora e ele substitui-o. Após quatro anos emancipa-se da Voz de Cabo Verde, com quem cresceu muito musicalmente, sobretudo graças a Paulinho Vieira. Torna-se um dos nomes mais conhecidos do meio musical cabo-verdiano em Lisboa, também um dos mais procurados, acompanha os melhores, como o Dany Silva, que o incita a dedicar-se definitivamente à guitarra. Vê-lo-emos igualmente colaborar com imensos artistas portugueses, como Rui Veloso. Em 1985, produz ele próprio o seu primeiro álbum, um disco exclusivamente instrumental, que põe em evidência todo o seu talento de guitarrista. Forma o seu próprio grupo, e grava em 1994, "Dança mi criola", cartão de visita que o dá a conhecer a toda a diáspora cabo-verdiana. É também o seu tema "fétiche", que toda a gente hoje lhe pede nos concertos ao vivo, entre outros, em Lisboa, na cave do Enclave, o seu restaurante-bar, ou no B.Leza, igualmente ponto de encontro da comunidade africana em Lisboa. Surgem "Graça de Tchega" em 1996, depois duas gravações ao vivo, das quais o "27 de Júlio 1990" saiu no ano de 2001. Entre as várias gravações, de Oslo a Nova Iorque, da Luisiana a Paris, o "animador" das noites africanas de Lisboa visita muitos países.

"Guilhermina", o seu último álbum, supera os êxitos anteriores. A voz rouca dos blues afirma-se, apresenta-se de uma forma instintiva. A guitarra ostenta uma eloquência ainda mais apaixonante. Uma indescritível melancolia e movimentos bamboleantes e insinuantes, uma profunda manifestação de "saudade", uma serenidade dolorosa, a nostalgia que caracteriza constantemente a música cabo-verdiana, bem como as coladeiras, o funaná, são propostas felizes e grandes tentações para dançar. Tito Paris adapta à sua maneira estes estilos emblemáticos de Cabo Verde. Acompanhado pelo seu grupo habitual, ao qual se juntam vários convidados e um quarteto de cordas, abranda ou acelera o ritmo, mistura influências angolanas, ou do norte de Portugal, faz um desvio por Moçambique ou evoca o samba do Brasil. Ao preservar a singularidade, o génio crioulo, a tradição da música cabo-verdiana, Tito Paris, embaixador voluntário e entusiasta da alma musical do seu país, abre também portas e janelas, estabelece pontes. Cria, sem nunca esquecer as suas raízes.

Jornal de Angola - www.jornaldeangola.com
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