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Futebol/Racismo: Portugal adere à moda. Rapper Pacman, com origens cabo-verdianas, agredido | Futebol/Racismo: Portugal adere à moda. Rapper Pacman, com origens cabo-verdianas, agredido |
| 03-Abr-2006 | |
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Dos insultos aos jogadores e ao árbitro já se sabia. Quem frequenta os estádios de futebol também já viu saudações hitlerianas e ouviu comentários racistas. No último Benfica-Barcelona, a humilhação do atleta negro Eto’o causou uma escaramuça na bancada. Por estas – racismo – e outras – violência –, segundo o psicólogo Luís Reto, as famílias andam afastadas dos estádios. No caso mais recente, trata-se não de perigo físico, mas de exposição a exemplos nocivos a uma criança. Jorge Bastos, 39 anos, engenheiro mecânico, tem essa opinião. Sportinguista ferrenho, é pai do Afonso, de oito anos, que “caiu para as bandas do Benfica”. Jorge gostava de levar o filho a um Benfica-Sporting, mas não se atreve. “Temo pela segurança física dele e não me agrada ter de explicar-lhe porque é que há pessoas de braço estendido [saudação hitleriana] ou que usam esquemas baixos para insultar jogadores.” Futebol só na televisão. O psicólogo social Luís Reto nota, contudo, que os comportamentos que afastam as famílias “atraem outro público, que só vai lá por causa disso”. Já o porta-voz do Benfica, Cunha Vaz, entende que “não deve confundir-se meia dúzia de idiotas com a massa associativa do Benfica”, clube “dos mais abertos”. Recusa por isso qualquer campanha de sensibilização, que “só serviria para dar importância aos insensatos”. Na sequência do crescente número de casos de racismo nos estádios – o exemplo gritante sucedeu também com Eto’o, em Saragoça (Espanha), quando ameaçou sair após insultos ininterrupto –, a FIFA decidiu aplicar penas severas, que incluem perda de pontos. Garantindo que as sanções da FIFA serão adoptadas em Portugal, o presidente da Federação Portuguesa de Futebol (FPF), Gilberto Madaíl, limita-se a perguntar “quem decide se houve racismo? O árbitro? A Polícia?”. FRONTEIRA COM CLUBISMO Admitindo que as medidas da FPF – cartazes nos jogos da Selecção – “são insuficientes”, Madaíl alerta para a “fronteira ténue entre racismo e clubismo”, que leva adeptos “a insultarem um adversário da mesma cor de outro que adoram no seu clube”. Já o director-executivo da Liga Portuguesa de Futebol Profissional, Cunha Leal, garante que “a LPFP cumpre todos os regulamentos internacionais”, considerando não existir necessidade de medidas adicionais. “Os indícios que temos são de que não existem casos de racismo nos jogos do campeonato nacional”, argumenta, minimizando o impacto das sanções da FIFA. Sobre os casos, por exemplo, de Eto’o, na Luz, McCarthy no jogo Porto-Sporting para a Taça e dos insultos de que era alvo o ex-jogador Oceano (nascido em Cabo Verde), disse desconhecer o primeiro, remeteu o segundo para a Federação (responsável pelas Taça) e disse que o sucedido com Oceano “foi há muitos anos”. LE PEN INSULTOU JOGADORES As declarações caíram como uma bomba – em pleno Mundial de Futebol de 1998, em França, Jean-Marie Le Pen, líder da Frente Nacional (partido francês de extrema direita), apelidou a selecção do seu país de artificial. O polémico político (candidato derrotado por Chirac à presidência da França, em 2002, na segunda volta) disse que recusava chamar à selecção francesa “equipa nacional” e acusou a maioria dos jogadores de nem sequer saberem ou ignorarem o hino ‘A Marselhesa’. Tudo porque a selecção tinha futebolistas com origens tão variadas como Arménia (Djorkaeff), Nova Caledónia (Karembeu), Portugal (Robert Pires), Argélia (Zidane) ou Cabo Verde (Patrick Vieira). A equipa, porém, respondeu-lhe com grandes exibições nos relvados, acabando por ganhar o Mundial e unindo os franceses numa onda de patriotismo. Le Pen seria obrigado a calar-se e, mais tarde, Desailly (natural do Gana e adoptado em criança por um casal de franceses) viria a chamar “fascista” ao político. ATIRAVAM-LHE BANANAS O ganês Gerald Asamoah foi o primeiro negro a vestir a camisola da selecção alemã de futebol. Mas a sua vida não foi fácil. No início de carreira e com apenas 18 anos, o jogador sentiu na pele o peso da discriminação e do racismo, numa altura em que a Alemanha lidava muito mal com a integração dos estrangeiros. Numa das muitas deslocações do seu clube da altura, o Hannover, a Cottbus, no leste do país, Asamoah e Otto Addo, outro negro da equipa, foram recebidos, em campo, com cuspidelas e bananas atiradas pelos adeptos. Os dois jogadores ainda foram insultados pelos próprios adversários. Felizmente as coisas mudaram. “Hoje tenho passaporte alemão, falo o idioma e jogo pelo país, mas isso não quer dizer que seja cem por cento alemão”, disse há dois anos Asamoah numa entrevista a um jornal alemão. “Não pretendo ser o salvador da pátria, mas é bom ter a sensação de que os alemães já vêem que também um negro pode fazer algo pela Alemanha.” Correio da Manhã - www.correiomanha.pt Comentários (0)
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