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Novos manifestantes são presos em Mianmá após missão da ONU
03-Out-2007
A polícia e o exército de Mianmá detiveram, nesta quarta-feira, dezenas de pessoas em uma operação em Yangun menos de 24 horas depois de o enviado especial das Nações Unidas, Ibrahim Gambari, tentar convencer a Junta Militar de Mianmá, a antiga Birmânia, a pôr fim à repressão e à violência. Ainda hoje, a Junta Militar de Mianmá libertou um grupo de monges e freiras.

A ampla batida aconteceu no centro velho da cidade e se concentrou em residências próximas ao grande pagode de Shwedagon, um dos pontos emblemáticos para os participantes dos protestos pacíficos, reprimidos a tiros e agressões por soldados e policiais na semana passada.

Os detidos, segundo testemunhas citadas por emissoras de rádio ligadas à dissidência birmanesa, foram retirados de seus lares entre a noite de terça-feira e a madrugada de hoje e colocados em caminhões militares, sendo levados a um local desconhecido.

As mesmas fontes disseram não saber o número de detidos, mas calcularam que chega a várias centenas, e que entre eles estavam famílias inteiras.

Outros moradores disseram que na antiga capital birmanesa o clima era tenso: veículos patrulhavam as ruas com soldados portando megafones, por meio dos quais advertiam os cidadãos de que estavam dispostos a realizar mais detenções.

Até o momento, a Junta Militar não deu indicações sobre onde estão as pessoas detidas nas últimas duas semanas em Yangun e em outras cidades do país, mas se acredita que o número tenha subido para vários milhares.

O relator da ONU para os Direitos Humanos em Mianmá e jurista brasileiro, Paulo Sérgio Pinheiro, que teve sua entrada no país impedida pelos militares nos últimos três anos, afirmou na terça-feira em Genebra que há milhares de detidos no país.

A Junta Militar afirma que dez pessoas morreram na semana passada durante a repressão feita pelas forças de segurança, mas os grupos dissidentes garantem que o número de vítimas passa de 200, e o de detidos está próximo de 6 mil.

A nova onda de detenções começou poucas horas depois de Gambari deixar Mianmá, após se encontrar com o general Than Shwe e outros membros da Junta Militar, que em ocasiões anteriores já atacou a oposição logo após a saída de algum tipo de missão da ONU.

Em novembro do ano passado, quando Gambari encerrou uma visita oficial a Mianmá para promover o diálogo entre os militares e a oposição, o governo birmanês prorrogou a prisão domiciliar da Nobel da Paz e líder da Liga Nacional pela Democracia (LND), Aung San Suu Kyi, que cumpria pena desde maio de 2003.

A atual missão de Gambari teve como objetivo comunicar a Than Shwe a preocupação da ONU com a repressão contra os partidários de uma mudança democrática e os monges budistas, que incentivaram uma mobilização popular.

Pelo menos dez parlamentares da LND escolhidos nas eleições realizadas em 1990, cujos resultados nunca foram reconhecidos pelos militares, foram detidos, assim como outros 137 membros da legenda, a única da oposição que resiste à intensa pressão do regime.

Segundo informações divulgadas pela rádio "Voz Democrática de Mianmá", cerca de 1.900 pessoas, entre elas monges, freiras budistas, estudantes e civis, estão presas em uma escola técnica de Insein, próxima à prisão de mesmo nome, ao norte de Yangun.

Entre os prisioneiros, de acordo com a rádio, há monges de entre 16 e 18 anos e noviços de 5 a 10 anos, que, assim como as freiras budistas, foram obrigados a vestir roupas civis.

Gambari, que antes de partir de Mianmar se reuniu novamente com Suu Kyi, esteve na quarta-feira em Cingapura com o primeiro-ministro cingapuriano e presidente rotativo da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean), Lee Hsien Loong.

A entrada de MIinmá na Asean, em 1997, representou um problema contínuo para o grupo regional, o que era previsto pela União Européia (UE) e os Estados Unidos.

Entenda o que acontece em Mianmá

Os protestos pacíficos começaram em agosto por causa dos aumentos absurdos no preço do combustível e se tornaram realmente ameaçadores para a Junta Militar quando os reverenciados monges budistas se uniram. A crescente multidão ganhou voz para expressar descontentamentos e o governo reagiu violentamente.

No dia 26 de setembro, a Junta Militar deu início a uma violenta repressão em que pelo menos 16 pessoas morreram, entre elas dois estrangeiros, de acordo com dados oficiais. O número pode ser muito maior uma vez que há diversos relatos não oficiais que apontam mais de 200 mortes.

O "homem forte" de Mianmá é considerado por alguns analistas o principal obstáculo para a reconciliação nacional e o começo do diálogo com a oposição, embora seu braço direito, o general Maung Aye, de 69 anos, também não seja muito partidário do diálogo com a Liga Nacional pela Democracia (LND), partido de Suu Kyi, a líder pró-democracia que está presa há 12 anos e considerada pela Junta Militar "um fantoche das grandes potências".

Mianmá é governada por generais há 45 anos e não tem eleições democráticas desde 1990, quando o partido oficial perdeu para a LND, que obteve 82% dos votos, mas o governo nunca aceitou o resultado.

EFE / Último Segundo - http://ultimosegundo.ig.com.br
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