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VDP-OL em reformulação

Caro visitante,

Estamos em processo de remodelação e reformulação. Esperamos ser breves.

Atentamente,

Amílcar Tavares.

...

«Bidonville» de Sucupira, da América para Cabo Verde
15-Nov-2007
Em Sucupira, o maior mercado de Cabo Verde, parte do que se vende sai de bidões que já foram de petróleo. Chegam dos Estados Unidos e são a forma que os emigrantes encontraram para ajudar a família. Em vésperas da primeira Reunião Ministerial EuroMed sobre Migrações, que decorre no domingo e na segunda-feira em Albufeira, no Algarve, no âmbito da presidência portuguesa da União Europeia, o caso de Cabo Verde, cuja população maioritária é emigrante, é tema incontornável do debate, mesmo no contexto euromediterrânico.

Os barris de crude estão por todo o lado, em cada loja do mercado de Sucupira e nas ruas que o cercam, e chegam às dezenas de cada vez ao porto da Praia, carregados de roupa ou arroz, de produtos de cosmética ou de brinquedos.

Nas tampas têm escrito, a marcador, o remetente e o destinatário: "José Spínola, EUA, para Andrese Mendes, Praia", são palavras que se podem ler num, pintado de preto e que já serviu para transportar petróleo bruto.

É este mercado de bidões que sustenta centenas de famílias em Cabo Verde. São enviados gratuitamente pelos familiares emigrados e o seu conteúdo é vendido em Sucupira mas também nas ruas da Praia ou até de outras localidades do arquipélago.

David Monteiro Macedo é um dos vendedores da Praia, embora seja natural da ilha do Fogo, como são muitos os que apregoam camisas de marca a 300 escudos (2,7 euros), algumas novas, ainda com etiqueta, e outras que manifestamente já tiveram "os seus dias".

A emigração cabo-verdiana nos Estados Unidos saiu principalmente das ilhas do Fogo, Brava, Santo Antão e São Nicolau, sendo por isso os naturais destas ilhas, e especialmente do Fogo, os grandes "senhores" dos bidões, como David Macedo, que chega a receber cinco por semana.

"Tenho quatro para tirar do porto mas não tenho dinheiro para os ir desalfandegar", conta David Macedo, com quatro irmãos em Portugal e dois irmãos e cinco sobrinhos nos Estados Unidos.

O mercado de barris, diz, começa de facto na Alfândega do Porto da Praia: "a alfândega abre os bidões e mexe em tudo e se as coisas que lá vêm são caras pagamos mais, às vezes mais de cinco contos (45 euros)".

E explica que há casos em que a alfândega pede tanto dinheiro que as pessoas acabam por deixar lá a mercadoria, que é depois vendida pela própria instituição.

Ainda assim David Monteiro não se queixa, ainda que tenha de pagar à Câmara da Praia 125 escudos (um euro) por dia para poder vender na rua, num local privilegiado, junto da rotunda do mercado.

Cláudia Silva vende os mesmos produtos mas, numa rua menos movimentada, paga apenas 75 escudos por dia. Cláudia não tem família emigrada mas compra os bidões ainda por abrir e vai vendê-los ali. Cada um custa em média 45 contos (408 euros) e é uma espécie de "bidão surpresa", porque nunca se sabe o que lá vem dentro.

Cláudia anda nisto há já anos. Conta que demora uma semana a vender o conteúdo de um bidão, quase sempre roupa, indiscriminada, que ela arruma como pode pelo chão e embrulha depois para o freguês, cada camisa, cada par de calças, em papel de jornal.

Aparentemente não é fácil vender tantas camisolas XXL (número muito grande), várias delas com as cores da bandeira dos Estados Unidos, mas outra vendedora, Da (diz que apenas se chama assim), afirma que consegue, incluindo os gorros de neve, os casacos, as botas e as camisas grossas, de Inverno. Da também não tem família nos Estados Unidos mas como outros vendedores justifica que agora os preços estão mais caros por causa "da queda das torres de Nova Iorque".

"Às vezes ganha-se bom dinheiro. Antigamente era mais fácil mas agora há muita gente a vender e é mais difícil", lamenta David Monteiro, que garante que as camisas que vende são "pouco usadas".

David não vende apenas roupa. Ao lado das calças estão produtos para o cabelo, sapatos, botas e quinquilharia diversa, tudo mandado pela família emigrada na "Merca" (termo vulgarmente usado pelos vendedores para se referirem à América).

"As coisas mais importantes, novas e bonitas, vêm no fundo do bidão", porque por vezes os homens da alfândega não têm paciência para remexer tudo e só reparam na roupa velha que está por cima, conta.

"O mais importante, o que se vende mais, é as botas. Se fosse eu que estivesse na ´Merca´ só comprava Timberland", diz este vendedor da Praia, a capital de um país onde sempre faz calor e por norma chove uma ou duas vezes por ano.

Apesar do tempo seco os produtos que não são vendidos voltam ao fim do dia para o aconchego das centenas de bidões, a maior parte deles chegados de Bóston mas também outros de New Bedford, Providence, Bridgeport, Orlando, S. Francisco ou Nova Iorque.

E quando tudo já anda pelas ilhas, no corpo, nos pés ou até na cabeça dos cabo-verdianos, o bidão cumpre o seu destino final: "um bidão vazio é vendido por mil escudos (nove euros) porque é muito bom para guardar água ou milho".

Principalmente água. Com os frequentes e quase diários cortes qualquer família tem uma reserva dentro de um "barril de crude" da "Merca".

Fernando Peixeiro, Agência Lusa
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