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Brasil/São Paulo: Cabo-verdianos convidam Sto. André para festa
12-Ago-2007
Sodade. Título de uma das músicas mais populares de Cesária Évora e estado em que se sente falta de algo que já passou ou está muito longe. Para a comunidade cabo-verdiana da região, composta por mais de 400 patrícios da cantora, a palavra em crioulo passa a não fazer sentido, tamanha a ligação cultural que mantêm com a terra natal. Neste domingo, o Grupo Cultural apresenta danças típicas no Cesa da Vila Sá, em Santo André. Assim como o Brasil, a influência do continente africano tornou o arquipélago – formado por 10 ilhas –, rico em ritmos contagiantes. “Os mais populares são a morna, espécie de samba-canção; e a coladeira, mais acelerado e alegre”, conta José Augusto do Rosário, 47 anos, cabo-verdiano radicado no Brasil há 44.

Além dos sons do continente, a cultura das ilhas localizadas ao Norte foi bastante influenciada pelos europeus. “A mazurca e a contradança são herança dos judeus fugidos da Inquisição e da marselhesa dos franceses, respectivamente”, conta Rosário, presidente da Associação Cabo-verdiana do Brasil, e cavaquinista em um grupo que mantém as tradições do país.

A música tupiniquim também marcou presença na formação da identidade cultural do arquipélago, que foi colônia portuguesa até 1975. “O meio-tom nas mudanças de acorde são das canções brasileiras. Como o país era entreposto de escravos, os navios brasileiros sempre paravam lá”, explica Rosário.

Após a Independência, a africanidade pôde ser resgatada. “Antes, muitas das manifestações de nossas raízes eram proibidas”, conta Rosário.

Danças - As danças mais tradicionais são o kola e o batuko, marcadas pelo ritmo dos tambores, na maior parte das vezes tradicional. “A primeira pode ser dançada por casais e consiste em encostar levemente o corpo no outro. A segunda, é exclusiva das mulheres e é necessário mexer bem o quadril”, explica Lucialina Maria dos Reis, a Lutcha, irmã de Rosário e folclorista.

O grupo costuma se apresentar em diversos festivais de folclore ou cultura africana. Descalças, as mulheres usam lenços nas cabeças, saias longas e rodadas. Lutcha contextualiza e apresenta os passos. O grupo tem ainda mais 16 integrantes, incluindo Maria Ana Silva Brito, mãe de José Augusto e de Lutcha.

Dança Tradicional de Cabo Verde – Neste domingo, às 14h30, no Cesa Vila Sá (av. Nova York, s/nº, tel.: 4997-7557), Santo André. Entrada franca.

CURIOSIDADES

Dos imigrantes em Santo André, quase a totalidade é composta por oriundos da ilha de São Nicolau, predominantemente agrícola;

O crioulo, língua nacional (que caracteriza o povo) de Cabo Verde é a mistura de 70% de português arcaico e 30% de dialetos africanos, como mandinga, banta e uolofe;

A culinária tradicional tem como principal prato a cachupa, espécie de feijoada feita com milho de canjica, dois tipos de feijão (que pode ser o verde) e carnes suínas. Os acompanhamentos são mandioca, batata doce e couve;

Assim como para os portugueses, o principal peixe é o bacalhau, em Cabo Verde, sobretudo na Ilha de São Nicolau. O eleito do mar é o atum;

No café-da-manhã e para lanches, o alimento mais comum é o cuscuz doce, feito com farinhas de milho e mandioca e açúcar;

A cachaça cabo-verdiana é conhecida como grogue;

A música contemporânea cabo-verdiana agregou recentemente o zouk – ritmo caribenho – entre as febres. Assim como há algum tempo era a cumbia.

MAR INSPIRA PINTOR DE SÃO NICOLAU

Por meio de tintas, pincéis e telas o aposentado Herculano Carlos dos Reis, 54 anos, morador de Santo André. reencontra as casas e paisagens de São Nicolau, ilha onde nasceu em Cabo Verde. “Minha grande inspiração são essas casas, árvores, as pessoas e o mar de lá”, conta.

Depois que sofreu um derrame e perdeu parte dos movimentos da mão direita, aprendeu a manipular os pincéis apenas com a mão esquerda.

Ex-marinheiro, seu quadro preferido retrata o Porto da Preguiça e o navio Ernestina, com o qual navegou.

JOGO POPULAR ENSINA A SER SOLIDÁRIO

O uri, passatempo mais comum no Cabo Verde, é um jogo de estratégia que prima pela nobreza de seu objetivo. “É preciso saber quando semear, colher e nunca deixar o companheiro morrer de fome”, ensina Lutcha Reis.

Dois jogadores recebem diversas “sementes” e têm de depositá-las, de quatro em quatro, dentro de pequenas covas feitas em um tabuleiro retangular de madeira.

Vale a mesma regra para retirá-las. Ganha quem tiver mais sementes.

UNIÃO PELA MÚSICA

De estudante a músico foi um passo para o cabo-verdiano Hélio Ramalho, 25 anos. No Brasil há dois anos e meio, radicado em São Bernardo, o estudante conseguiu, além de um lugar na cadeira universitária, montar a Sarabudja (algo como caldo de mocotó em crioulo), banda que já tem espaço no circuito alternativo.

“Vim a convite de uma amiga para fazer faculdade e conheci o Ricardo (Mingardi). Logo surgiu a banda. Eu faço violão e voz e ele a percuteria (percussão + bateria)”, afirma. O som da dupla remete à coladeira, batuko e tabanka cabo-verdianas. “Nosso objetivo é fazer misturas”, diz ele, fã de Jorge Ben Jor e Caetano Veloso e do cabo-verdiano Tcheka.

De acordo com o estudante de Administração, a identificação Brasil-Cabo Verde é imediata. “São parecidos o estilo de vida e a música. Lá é comum termos dois violões em casa para tocar. Quando vim para o Brasil, trouxe o meu e levo para onde vou”, diz.

Histórias como a de Ramalho se tornaram comuns há alguns anos, quando foi firmado um convênio entre Santo André e o município de Ribeira da Brava, na Ilha de São Nicolau. A estimativa é que haja 100 estudantes cabo-verdianos na cidade e em São Bernardo.

Ângela Corrêa - Do Diário do Grande ABC
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