| Cabo-verdianas em Portugal: Ser portuguesa para jogar na selecção |
| 02-Abr-2007 | |
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Representar a selecção portuguesa. Obter uma bolsa de estudo. Beneficiar de subsídio para habitação. Conseguir um emprego melhor. Circular livremente pelo espaço Schengen. Todas estas hipóteses estão vedadas à Marta, à Silvina, à Edna, à Otília e à Graciete, jogadoras de andebol da Assomada, equipa finalista da Taça de Portugal de 2005 e que está nos oitavos-de-final deste ano. O desporto tirou-as da rua, deu-lhes destaque e a hipótese de serem portuguesas mais rapidamente. Para alcançar estes so- nhos, todas conseguiram pedir agora a nacionalidade portuguesa. Um processo mais simples devido à nova lei, que entrou em vigor em Dezembro. As cinco raparigas são as mais velhas de um conjunto de crianças e jovens que preenchem, em Oeiras, os vários escalões de andebol da Associação de Solidariedade Social Assomada (cidade cabo-verdiana). A maioria não tem a nacionalidade portuguesa, embora nunca tenha conhecido outro país. Moram em bairros sociais - Outorela, S. Marçal, Talaíde e Moinho das Rolas, habitados sobretudos por cabo-verdianos. O alto-comissário para a Imigração e Minorias Étnicas, Rui Marques, assinalou o terceiro aniversário do Centro Nacional de Apoio ao Imigrante, em Lisboa, com a entrega do pedido de naturalização de 15 destes atletas. As raparigas jogam desde as carteiras da primária. Fazem-no com muito esforço e sempre com um brilho nos olhos. O desporto foi a porta para uma vida diferente da exclusão a que estão sujeitos muitos dos seus vizinhos e amigos. "O andebol mudou muita coisa na minha vida. Estamos na vida de uma forma diferente dos outros que não tiveram esta oportunidade", diz Silvina Moreno, 21 anos, que joga desde os nove. Só parou quando nasceu a filha, há um ano e sete meses. Estudou até ao 8. º ano. Está desempregada. "Adoro. É um hobby que tenho desde pequena. Se pudesse... só fazia isto", diz Otília Santos, 22 anos. Tem uma filha de dois anos e mora com a mãe. Trabalha num centro de reabilitação de Oeiras. Sai às 17.00 para ir buscar a filha à creche, dá-lhe o lanche e espera pela camioneta do clube que a leva aos treinos. Regressa às 23.00. É assim três vezes por semana e com jogos ao fim-de-semana. Os estudos ficaram para trás. Otília falhou a presença nas competições europeias que se realizaram o ano passado na Sérvia e Montenegro porque não tinha documentos. Pelo mesmo motivo, não pôde dizer "sim" ao convite do seleccionador nacional de andebol. Quando tiver o BI português, esse é um sonho atingível, mas a idade começa a atrapalhar. As duas colegas de equipa que obtiveram a nacionalidade já estão na selecção. Marta Furtado tem 19 anos e começou a jogar aos dez. É quem acalenta maiores esperanças de ingressar na selecção. Trabalha numa fábrica de electricidade em Carcavelos e está a fazer a equivalência ao 9.º ano. "Como cidadã portuguesa, a minha vida será muito mais fácil", acredita. Graciete Borges esperou pelos 18 anos para pedir a nacionalidade. Depois, percebeu que não foi fácil. "Faltava sempre um papel e acabei por deixar andar." Tem 21 anos e está no 1.º ano de animação sociocultural da Escola Superior de Educação de Lisboa. Vai às aulas de manhã, trabalha no McDonalds à tarde, treina à noite e defronta as adversárias aos fins-de-semana. "Preciso de trabalhar. Não tenho bolsa de estudo porque não sou portuguesa", justifica. Edna Borges é a mais velha do grupo, tem 24 anos. "Tenho um irmão na Suíça e quando obtiver a nacionalidade posso ir para lá", sonha. Visitou Cabo Verde num torneio de andebol. "Adorei, mas não me vejo a viver lá. Sinto-me mais portuguesa do que cabo-verdiana", diz. Não gosta de cachupa (prato cabo-verdiano) e elege o bife com batatas fritas como a refeição perfeita. Mas na hora de dançar escolhe as discotecas africanas. Diário de Notícias - www.dn.pt Comentários (0)
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