| Condutora que matou cabo-verdiana e são-tomense em Lisboa ficou em liberdade |
| 05-Nov-2007 | |
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A cabo-verdiana Neuza, a sua mãe Rufina, a tia Cipriana e a amiga Filipa apanharam ontem o primeiro barco da manhã no Barreiro em direcção a Lisboa. Era só mais um dia. As empregadas de limpeza pegavam ao serviço às 06h00 em instituições bancárias na Avenida da Liberdade. Não chegaram ao destino. Numa passadeira, um carro desgovernado atingiu-as com uma violência desmedida.
Neuza (de 18 anos) e Filipa (57, mãe de dez filhos) tiveram morte imediata. Rufina (42) sofreu múltiplas fracturas e só chamava pela filha. Cipriana desmaiou, chocada ao ver os corpos das familiares espalhados no asfalto. O carro só parou 150 metros à frente. A condutora, de 35 anos, saiu e em pânico foi refugiar-se na esquadra da PSP. Não acusou álcool ou droga e está em liberdade sem ainda ter sido presente a um juiz. As quatro mulheres, residentes no Barreiro, atravessaram, na passadeira, a primeira via da Av. Infante D. Henrique, a poucos metros do terminal fluvial do Terreiro do Paço. A sinalização, segundo testemunhas, estava verde para os peões. Quando iam a meio da segunda via, o Fiat Punto cinzento conduzido pela mulher de 35 anos, vindo no sentido Santa Apolónia-Terreiro do Paço, entrou em despiste, alegadamente provocado por excesso de velocidade, e ceifou as mulheres. Só Cipriana Rocha saiu ilesa. Mas com um trauma de que tão cedo não vai recuperar: viu a sobrinha morrer despedaçada e a irmã a ser encaminhada para o hospital gritando pela filha. A viatura chocou violentamente com Neuza Rocha, que vinha de braço dado com a mãe, Rufina. O embate foi tão brutal que fez com que o corpo da jovem se desmembrasse. A ponto de o seu tronco ir parar ao interior do veículo. A condutora ainda derrubou um semáforo. Além do excesso de velocidade, o despiste poderá também ter ocorrido devido a uma avaria no veículo, mas só a investigação e perícias da PSP o poderão determinar. A hipótese de ter adormecido não está afastada. Segundo fonte policial, a condutora, residente na zona do Parque das Nações, abandonou a viatura. E, “em estado de choque”, dirigiu-se à PSP na Praça do Comércio pelo seu próprio pé “e prestou depoimento” sobre o que protagonizara. Foi depois levada ao Hospital de S. José, onde recebeu apoio psicológico. As análises não acusaram a presença de álcool ou drogas no sangue. Para trás ficaram os pedaços do cadáver de Neuza – que foi projectada a mais de 100 metros da passadeira onde iniciou a travessia –, o corpo inanimado de sua mãe, Rufina, e o cadáver de Filipa Semedo, cercado de documentos e sapatos. A avenida esteve cortada, nos dois sentidos, durante quase três horas. O INEM recebeu o alerta às 05h35. Mas já só havia Rufina para salvar. A cabo-verdiana foi levada para o Hospital de São José, onde foi submetida a uma cirurgia de quatro horas. “A doente está estável e sofre de múltiplas fracturas. O prognóstico mantém-se reservado”, informou fonte hospitalar. Marcos Perestrelo, vereador responsável pelo Departamento da Segurança Rodoviária e Tráfego, apelida o atropelamento fatal como “revoltante” e promete que “a Câmara vai reforçar as medidas de segurança rodoviária na zona”. A condutora não vai, para já, ser presente a Tribunal, aguardando julgamento em liberdade. A mulher, de 35 anos, pode vir a ser acusada pelo Ministério Público de homicídio por negligência. FILIPA DEIXA DEZ FILHOS Filipa Lopes Semedo, de 57 anos, oriunda de São Tomé, deixa dez filhos. Teve morte imediata. O seu corpo ficou junto à passadeira rodeado de documentos e sapatos. A família lamenta o azar de uma mulher trabalhadora CHAMAVA PELA FILHA NEUZA Rufina Rocha continuava ontem à noite internada nos Cuidados Intensivos do Hospital de S. José. No local, chamou muitas vezes pela filha. Devido ao seu estado de saúde, ainda não sabe que Neuza morreu "ELA PAGOU UMA VIAGEM PARA VIR MORRER AQUI" O marido de Cipriana, Marcelino Costa, não quer acreditar que um atropelamento ceifou a vida da prima Neuza e que deixou a tia Rufina em estado muito grave. “A miúda tinha 18 anos, coitada. Ela pagou uma viagem para vir morrer aqui. A minha tia ainda nem sabe de nada. Mas já me disseram que ela está a melhorar”, diz ao CM, emocionado. Neuza chegou ao Barreiro há cinco meses. Saiu de Cabo Verde para vir trabalhar em Portugal com o objectivo de juntar dinheiro e singrar na vida. “Foi um grande azar mesmo. A minha mulher está em choque. Viu tudo e só consegue chorar”, conta ao CM. Luzia e Carlos Semedo (na foto da direita, no local do acidente), cunhada e irmão de Filipa Semedo dizem que esta “foi sempre uma grande mulher”. “O marido deixou-a e ela criou dez filhos sozinha sempre a trabalhar. É muito triste o que lhe aconteceu hoje”, diz Luzia ao CM. Filipa chegou de São Tomé em 1995 decidida a lutar pela vida. “Teve um percurso de vida difícil mas nunca se deixou derrubar”, lamenta Luzia. TRIBUNAL PUNE CONDUTOR Um acórdão do Tribunal Constitucional (TC) publicado ontem em Diário da República confirmou como válidas as normas do Código da Estrada que prevêem que um condutor com menos de três anos de carta possa perder o direito à mesma se cometer uma infracção muito grave. A decisão foi motivada por recurso do Ministério Público de uma decisão do Tribunal de Abrantes, que considerou inconstitucional a norma que retirou a licença de condução a um condutor com menos de três anos de carta que não obedeceu a um sinal de stop. Os juízes consideram que a obrigação de não cometer infracções graves nos primeiros anos de carta faz parte dos requisitos para possuí-la. Correio da Manhã - www.correiomanha.pt Comentários (0)
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