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Ex-serviçais cabo-verdianos das roças em São Tomé sentem-se "abandonados"
16-Set-2007
Os antigos trabalhadores cabo-verdianos das roças em São Tomé e Príncipe na época colonial sentem-se hoje "abandonados" e "desonrados" por nada terem, estando muitos apenas "à espera da morte", segundo um livro a publicar quarta-feira. "Nós estamos à espera, aqui em São Tomé, da morte, mais nada, cada um de nós está à espera do nosso dia", referiu um imigrante cabo-verdiano em São Tomé ao autor do livro "O fim do caminhu longi", o investigador português Augusto Nascimento.

Ao longo de 144 páginas, o investigador do Instituto de Investigação Cientifica Tropical, em Lisboa, retrata o quotidiano e a vida de "miséria" dos milhares de cabo-verdianos que na época colonial trabalhavam nas roças para os portugueses.

Em declarações à Agência Lusa, Augusto Nascimento disse que não há dados sobre o número de imigrantes cabo-verdianos em São Tomé, mas estima-se que rondem os 10 mil, incluindo os descendentes.

"Vivem em condições de miséria, no mato e em antigas roças, que estão degradas", salientou, adiantando que os mais velhos "já desistiram de trabalhar" e os descendentes chegam a frequentar a escola, mas também "não conseguem sair da pobreza".

"A pobreza é de tal ordem que explanam considerações acerca de serem, ou não, criaturas de Deus, pois têm de comer banana com bicho que está no mato ou búzios, que procuram para ver se conseguem algum alimento. Na melhor das hipóteses, aspirarão a adquirir uma pouco de manteiga para enganar o pão", escreve o autor do livro.

Na publicação, Augusto Nascimento aborda ainda o contexto histórico, político e social em que os ex-trabalhadores cabo-verdianos vieram para as roças e a sua trajectória de empobrecimento após a independência do país, em 1975.

"Na altura da independência, os ex-serviçais acreditaram nas promessas dos são-tomenses e optaram por ficar em São Tomé", disse, sublinhando que "fizeram um mau cálculo político sobre o futuro do país".

Augusto Nascimento referiu ainda que as condições de vida destas pessoas se foram degradando, tornando-se assim difícil o regresso a Cabo Verde.

Os últimos "gabões", como são conhecidos os ex-serviçais em São Tomé, chegaram ao país em 1970.

"O Fim do Caminhu Longi", que resulta de recolhas efectuadas ao longo de vários anos em São Tomé e Príncipe, vai ser apresentado quarta-feira na Casa Fernando Pessoa, em Lisboa, e publicado na próxima semana.

Na visita que efectuou em Agosto a São Tomé e Príncipe, o primeiro-ministro cabo-verdiano, José Maria Neves, anunciou a intenção dos governos dos dois países iniciarem um diálogo tripartido com Portugal para conseguir apoio para os antigos trabalhadores das roças.

Agência Lusa - www.lusa.pt
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